quinta-feira, dezembro 13

Lares ilegais - Opiniao

Tem-se por aí ouvido falar em lares ilegais. Parece que a humanidade acordou para uma realidade que há muito se vive em Portugal. Estatísticas apontam para a existência de mais de 600 destas casas em Portugal como se se fizesse uma descoberta de petróleo nas profundezas da ZEE portuguesa. Não me espanta. O estado anda adormecido face às necessidades de relevância que o país atravessa e depois vêm mostrar-se chocadissimo quando se assiste a reportagens como as que tem passado nos últimos dias na televisão. 
E querem saber a minha opinião? Ainda bem que os há, os de qualidade. Num país em que os meus avós passam anos a pagar quotas e a descontar para poder usufruir de uma velhice confortável, após o trabalho árduo que prestaram durante anos a uma terra que pouco de bom lhes deu em troca a não ser os calos nas mãos, a fome dos dias e outros sacrifícios que tais, pedirem-lhe agora - altura em que já nada podem fazer - mil e duzentos euros mensais para poderem ter os cuidados e atenção de que merecem? 
É pouco ético. Ainda mais para um país que se diz desenvolvido. Perdoem-me se acham que estou errada e perdoem-me os lares de "luxo" deste país e quem tem dinheiro para os pagar, mas ainda bem que há pessoas que gostam mais de idosos do que de dinheiro.
Falo em causa própria.
Graças a Deus que existem lares ilegais de qualidade. Casas de repouso.
Não vos falo de depósitos de velhos. Falo-vos de famílias novas de idosos que ainda têm muitos anos pela frente e que os querem encarar com um sorriso, longe da solidão de quatro paredes velhas, onde escorrem memórias de tempos árduos, perdidas nos confins do campo, ou das ruas cheias onde muitos moram, todos lá passam e ninguém os visita.
Só eu sei o que sinto quando visito a minha avó e ela está mais sorridente que nunca, numa casa que não é a dela, mas que passou a ser porque os tempos assim o obrigaram e as circunstancias, infelizmente, também.

Eticamente falando devia-se defender que estes estivessem nas nossas casas, que tivessem o direito de viver perto do seu seio familiar. Quem me dera poder tê-la a contar-me as histórias de Inglaterra, enquanto bebíamos um chá de camomila como tanto gosta, acompanhada de um bolo de café, que não sei fazer, mas que certamente me iria ensinar. Para que são precisos lares? 
As gerações mudaram. As famílias estão cada vez mais desagregadas e torna-se insustentável, para mal da humanidade. Sim, para mal da humanidade. Porque o saber dos mais velhos devia morrer perto dos mais novos, e não perto daqueles que passaram pelo mesmo e sabem de cor o que a vida custou. Talvez a crise actual não fosse desculpa para tudo. Talvez não fossemos a geração à rasca mas sim uma geração mais desenrascada. Onde o conhecimento de causa nos faria pensar na sorte que todos temos agora sem saber; na sorte que eles não tiverem nem continuam a ter por pagarem mil e duzentos euros pela felicidade dos seus últimos dias. 

Dói. Porque os amo.
Dói porque não os posso ter por perto.
Dói porque em breve vão partir sem glória.
Ainda assim, um bem haja aos lares ilegais de qualidade.
Um bem haja às pessoas que lutam contra um estado medíocre e deficiente na oferta de qualidade de vida. 
Um bem haja aos meus avós, que são os melhores do mundo e merecem o sorriso da manhã e um beijo de boa noite de alguém e não das quatro paredes da solidão. 

as fotos com a avó tao a caminho

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