segunda-feira, dezembro 16

Aprender a errar melhor


«Prefiro errar sendo fiel a quem sou, do que acertar não sendo eu», em A Persistência da memória de Daniel Oliveira


Perdi-me. Perdi-me em ti porque me tinha encontrado. Sabes, as pessoas perdem-se muitas vezes umas nas outras na esperança de se encontrarem. E encontram-se muitas vezes no intuito de se perderem em alguém. Ou por alguém. Foi o meu caso, penso eu. Não sei bem. Não sei bem porque nunca me considerei uma "sem norte à terra"; os meus pés sempre pesaram chumbo. Vivo o que vejo, não o que imagino. Daí não me fiar em palavras rasas que enchem de ilusões corações que preferem verdades absolutas - que no amor, na paixão, ou no que lhe quiserem chamar, é coisa que vai deixando de existir, se é que alguma vez existiram, eis a questão. 
A minha vida nunca me deixou perder muito tempo com coisas desinteressantes, coisas essas onde incluo não só coisas, mas pessoas a que prefiro não dar esse nome. Porque para mim pessoas, são pessoas interessantes. E tu eras (és) pessoa de corpo e alma. Eu disse-to. Eu repeti-o. Eu mostrei-to. Dei-me a esse luxo, a que agora prefiro chamar erro. Errei sempre com as pessoas que considero interessantes o suficiente para me fazerem perder o norte. Errei sempre em ser fiel a quem sou. Aliás, em mostrar demasiado isso. 

Tens toda a razão.
Aliás, não tens razão nenhuma. Houvessem mais pessoas como tu, era o que no fundo me querias dizer.

Existem dois tipos de inícios numa relação, que pode nunca chegar a ter inicio, se é que me faço entender. Aqueles em que as duas pessoas se desejam sofregamente, a que chamamos paixão. E aqueles em que uma começa por ter uma empatia e nunca se sabe o que esperar da outra, a que podemos chamar muita coisa. Nomeadamente: inicio de um desamor, inicio de um quase-amor, inicio de um jogo de ping-pong - "tu és minha e eu não sou teu, mas podemos ir sendo um do outro se deixares" - ou, simplesmente, uma coisa sem nome, a que vão chamando "sexo sem compromisso" -eu prefiro chamar-lhe "tirar a barriga de misérias" (ou enche-la delas, na maior parte dos casos). Adiante.

Não tenho tempo nem paciência para estas tretas! Para mim é tudo mais simples: as pessoas ou gostam umas das outras, ou não gostam. Se gostam devem mostrá-lo - é aqui que temos o caldo entornado, acreditem!-, se não gostam têm bom remédio, não se dêem a esse trabalho. A ilusão é uma coisa feia. Tão feia quanto a mentira ou a traição. Dói quase na mesma medida quando morre em realidades.

O amor dos nossos dias é estúpido. Amor não é a palavra certa. Traduzam-me em palavras as primeiras borboletas no estômago que todos sentem, é aí que quero chegar.

Porque há-de uma pessoa fazer-se difícil para aquela que mais quer deitada na sua cama a fazer-lhe cafunés ao sábado à noite, quando sabemos que o que ela quer é deitar-se connosco também? "Para dar pica". Entusiasmante, mas estúpido. Porque é que se hão-de adiar os "eu gosto de ti" se se gosta mesmo naquele momento? "Para não assustar as pessoas". Verdade, mas estúpido. Porque é que deixamos os bilhetinhos para uma altura em que podemos dizer as coisas no ouvido, em vez de os usarmos nas alturas em que todas as palavras ditas fazem mais sentido? Primeiro porque as pessoas hoje em dia não estão habituadas a receber bilhetinhos, segundo porque podem correr o risco de um "Bom dia" soar a um "Fica comigo para sempre" e terceiro porque já pouca gente corre o risco de dizer o que sente. Vamos escrevendo por aqui e por ali, directa ou indirectamente, na esperança que as palavras cheguem a quem devem chegar, na quase certeza de que chegam mesmo - senão não o escreveríamos certamente -, aquilo que queremos que elas saibam sem nunca o dizermos. Estúpido? Verdade. Olhem para mim aqui.

Se não, quantas pessoas tem coragem de vos olhar nos olhos? Quantas pessoas marcaram um encontro só para vos dizer "Eu gosto de ti com todos os defeitos que tens chapados na cara". Quantas pessoas acordaram de manhã para vos deixar um "Bom dia!" colado na porta do carro antes de irem trabalhar? Quantas pessoas vos quiseram ver bem quando nem vocês sabiam bem como eles estavam naquele momento? Quantas pessoas tiveram a coragem de vos dizer o que mais ninguém diz? Quantas pessoas se preocuparam primeiro com o vosso bem estar, quando no fundo vocês eram o bem estar delas? Quantas pessoas vos vão abraçar e desejar sorte quando acreditam que a vossa sorte está ali, a fugir-vos dos braços naquele momento?

Poucas.
Talvez erre tanto em dizê-lo como em fazê-lo.

Aprendemos que as atitudes ficam com quem as pratica e que o amor (ou qualquer outro sentimento entre duas pessoas) não se compra assim. Aliás, o amor não se compra: o amor são as próprias atitudes. E se elas não chegam para que as pessoas se gostem na mesma medida é porque efectivamente não nasceram para se encontrar dessa forma. Ou talvez tenham nascido, mas não naquela altura ou naquelas circunstancias. 


Quem sabe? Ninguém.

Além de estúpida, sinto-me bem. Descansa. 

A vida continua...
(ouviste? A vida continua...)

Patrícia Luz
16 de Dezembro de 2013

quarta-feira, dezembro 4

O Ensino Superior Português

Sentados àquela mesa conversávamos. O tempo tinha que passar e assim escolhemos passá-lo. De professor para aluno com as cartas sobre a mesa: o ensino superior português, era o tema. Diante de umas urnas despidas de si próprias, pela falta de interesse - como tem vindo a ser habitual - dos estudantes que tanto as deviam abraçar, o olhar era de mágoa, alternado pela inconformidade e revolta em algumas palavras, confissão noutras avançadas a medo; realidades no fundo. O horizonte a que nos submetíamos e do qual estávamos bem cientes.  

Trágico. Trágico é a palavra mais acertada para definir o ensino português actualmente no nosso país. O declínio a que nos sujeitámos nos últimos anos culmina num buraco sem fundo à vista; parece ninguém se ter apercebido ainda no saco roto onde nos enfiámos. Andaremos assim tão preocupados com as nossas vidas a curto prazo que não tenhamos ainda parado para pensar naquilo que nos rodeia? Não. Enquanto estudante quero crer que não; todos vemos o que não queremos ver. 

Ora vejamos. Perfazem dez anos após a implementação do processo de Bolonha, que com todas as vantagens que, acredito, tenha trazido na uniformização da Europa como um espaço global de ensino coerente e competitivo, veio alterar drasticamente o ensino superior português num ponto, na minha opinião, fundamental: a duração dos cursos. Passaram, como a maioria de vós sabe, as licenciaturas de um modo geral a ter a duração de três anos, salvas excepções onde se entende que seja necessária uma maior especialização. E é aqui que mesmo que começa o enredo de uma história que até hoje enfrenta dias pouco felizes. 

Assim se procurou fazer frente ao tão citado provérbio português «de pressa e bem, não há quem». Uma guerrilha um pouco mal sucedida a meu ver. Trocados os cinco anos habituais, onde o conhecimento era transmitido na sua conta, peso e medida, pelos três em que a vida académica se resume a uma correria desenfreada àquele que será o próximo passo - o inicio de uma carreira profissional - estaremos nós preparados para o enfrentar? 

Creio que não. 
O ensino português de antigamente preocupava-se com um dos grandes problemas existentes no nosso país. Resumidamente, dava primazia à qualidade e não à quantidade. Cingindo-me ao curso de Gestão, de que modo podemos comparar um licenciado em cinco anos sujeito a três estágios integrados numa empresa durante o seu percurso académico e um trabalho final de curso que simplesmente sumiu do programa, com um aluno da actualidade, licenciado em três e com um estágio que interessa mais às empresas do que propriamente a quem o faz dado o conflito de interesses a que assistimos por parte destas no usufruto de mão de obra barata na satisfação, muitas das vezes, de serviços mínimos durante as férias de verão? Não digo que isto seja a regra geral, mas quantos de vocês deram por ela a "encher chouriços" naquela que devia ser a vossa rampa de lançamento na carreira para a qual depositaram o vosso esforço e dedicação?

Muitos. 

«Os cursos que não são cursos, existem.» Quando existiam cursos a sério, dizia aquele professor triste com o declinar da paixão a que dedicou toda a vida, o ensino superior era visto como a voz mais alta do povo. Assistimos a um divórcio entre o conhecimento e a sua prática. Destruiu-se o ensino tecnológico, destruiu-se o ensino politécnico e caminhamos cegamente na destruição do ensino universitário. 

Somos licenciados aos pontapés sem credibilidade. Licenciados empilhados numa das estatísticas mais infelizes do nosso país a que chamamos desemprego. Empilhados não, pendurados. 
Não acreditam que o próprio estado dúvida das "ovelhinhas" que educa? Prova disso é a avaliação dos professores. Porque haveriam de prestar um exame aqueles que exercem a profissão há menos de cinco anos? Não deveriam ser esses os mais cultivados a ensinar os mais velhos, a ser a bateria rejuvenescedora das escolas, a ter a frescura de quem tem toda a garra de transmitir os conhecimentos adquiridos, quem sabe, no ano anterior? Pois é. Já ninguém acredita em nós. Como poderemos nós acreditar num futuro risonho, neste país?

A ilusão que dá resposta a esta questão, chama-se empreendedorismo. 
A ilusão que o nosso país vive está em empreender num ensino debilitado que caminha em sentido retrogrado. 


Abramos os olhos.
Porque apesar de tudo isto, o futuro é nosso e é a nós que diz respeito. 
Não cruzemos os braços. 
Se não lutarmos pelos nossos direitos e deveres cairemos para sempre na comodidade de sermos uns falhados conformistas.

Ainda é tempo.

Patrícia Luz
5 de Dezembro de 2013

Esta é e será apenas a minha opinião.





terça-feira, dezembro 3

À minha querida Joana,



«O passado é um lugar estranho. Lá as pessoas são diferentes» não achas? Olhar para elas e não as ter agora connosco faz-nos pensar em muita coisa. Em como a vida muda, em como as pessoas nos fogem; em como nós as deixamos simplesmente ir. Quantas vezes adormecemos a pensar no vazio das nossas camas na esperança de o poder ter para sempre ocupado com aquele que achávamos ser o homem das nossas vidas? E quantas terão eles pensado na sorte que tinham em ter alguém que pensasse assim? Talvez nenhuma. Porque na verdade os homens da nossa vida dar-nos-ao valor. Valor, minha querida Joana. O que nos faltou sempre, foi o valor merecido. Nem eu nem tu o soubemos, porque o amor é mesmo assim, uma guerra desenfreada onde nós lutamos pelo fim sem nunca querermos muito bem saber do que vai e volta pelo meio. E quantas vezes fomos e voltámos sem nunca receber grande coisa em troca? O amor devia ser isso, a troca de um sentimento bom. Já o escrevi muitas vezes, tu sabes. 

Hoje sento-me aqui deste lado, como tu aí - onde habitualmente escreves também - e não sinto nada. Podes não acreditar, mas felizmente, eu não sinto nada. As últimas e únicas lágrimas que caíram no meu rosto, secaram ao teu lado neste dia de praia. Enterrei-as na areia e nunca mais lá voltei. Curei-me. E não é que o amor seja uma doença; no fundo eu é que estava a ficar doente por amor. Ninguém merece! Ninguém merece passar por isso. Por isso é que aqui estou. Cheia de esperança a escrever para ti. 

Nada acontece por acaso. Lembra-te! 
Lembraste daquela manhã em que ficámos de pijama a estudar matérias que não dominávamos para fazer o bem de quem pouco nos dava valor? Sim, essa mesmo! A manhã em nos conhecemos, melhor, por assim dizer. Qual a probabilidade de nos termos conhecido se não fossem todas as circunstancias que culminaram no fim daquilo que nos alimentava até aquele fim do mundo? Nada acontece por acaso, Joana. Se aqui me sento agora a escrever-te este texto é porque isto é mesmo verdade.

E por isso quero agradecer-lhes. A esses dois idiotas que fizeram com que conhecesse uma das pessoas mais espectaculares durante este ano de dois mil e treze que agora termina, com um final bem diferente do que era habitual. 
Já olhaste bem para ti? És linda. E pessoas como tu devem olhar para a vida com os projectos numa mão e a concretização dos mesmos na outra. Quantas noites loucas perdeste nos últimos anos, quantos amigos não visitas à séculos por falta de oportunidade, quanto tempo te resta para fazeres tudo o que há de melhor na vida? Também ela é linda e está à tua espera.

Lembro-te o texto que publiquei no dia em que fomos a almancil:  E talvez os meandros da vida estejam à espreita para nos pregar partidas e sustos por entre curvas apertadas e despistes a fundo sem que estivéssemos  à espera. Ou talvez nao seja nada disso. Provavelmente esperam-nos rectas para acelerar a fundo e fugir dos medos que nos assombravam a estrada. E se nao for nada disso é como uma pista de karts onde nos divertimos a brincar com tudo isso como se nao houvesse amanha. A vida é isso. Uma coisa que pouca gente sabe bem como conduzir e toda agente conduz sem saber.

No fundo foi o que aprendi nos últimos tempos: «Se a vida te der limões, faz limonadas»! Mas faz mesmo! 
Depois chama-me. Cá estarei para as beber contigo, sempre.

Um beijo cheio de energia, desta amiga que não te esquece,
Parabéns! 

Patrícia Luz
3 de Dezembro de 2013














segunda-feira, dezembro 2

A casinha cor de rosa

Mais uma vez o sol se pôs e a noite caiu sobre a cidade. Instantes. Menos um dia de vida para alguns. Mais um, para outros. Como o tempo passa... 
Regresso agora a casa como a maioria das pessoas que finalmente olham o relógio e embarcam na hora de ponta do final de tarde - desesperadas pelo sofá de suas casas, pelo abraço dos seus filhos, o carinho dos seus maridos ou apenas do silêncio das quatro paredes que as esperam - num pára-arranca despreocupado, pensativa como sempre sobre os afazeres que a vida me vai dando, ouvindo os repetidos heats da rádio que, como todos sabemos, pouco diferem de dia para dia, excepto a piadinha que por sorte se inventou à pala no noticiário do dia anterior para solucionar males maiores; apreciando o ar friorento daqueles que se movem pelo passeio, uns em tom pachorrento, outros apressados de sacos de compras e crianças pela mão e todo aquele dinamismo de carros e luzes de um lado para o outro, que fazem a cidade ganhar seu próprio nome. 
Como eu, muitos percorrem os mesmo caminhos todos os dias e este é habitual para mim. Apesar de despreocupada, vinha ansiosa. Tinha uma mensagem por ler no telemóvel e ele tocara ali ao lado, constantemente, alertando-me. Mas nem isso me fez deixar de olhar para ti com o encanto de sempre. De sempre...
O semáforo mudara. O transito estava denso e deixou-me à tua porta. Que nostalgia! Como poderia eu apreciar a luz do sol minutos antes como se fosse a melhor coisa da minha vida e estar agora especada, no meio do transito, a olhar para a minha casinha cor de rosa, toda iluminada e sentir que o melhor de mim tinha permanecido ali? O verde caíra. Não dei pela distancia a que o carro da frente já se adiantava sequer. Mas dei por mim a entrar finalmente em Dezembro, da pior das maneiras. Da pior das maneiras, a olhar para a casinha cor de rosa com olhos de ver e coração a palpitar-me nos dedos.
Quantas pessoas ali passarão sem se dar conta da triste realidade que se vive além daqueles muros altos, cor de rosa, que transpiram uma paz que poucas crianças vivem? Ali, e em todos os outros muros, de todas as outras cidades, de todas as outras casas de várias cores, onde passarei também eu sei saber, tu, ele, eles, nós. 
O meu caminho de regresso a casa ganhou outro brilho. Não por a cidade estar muito mais bonita desde ontem, com cores novas e um cheiro a natal para aqueles que o viverão perto dos seus entes queridos, no quentinho da lareira, abrindo presentes e trocando amor e gargalhadas, mas sim por me lembrar de ter a Mariana sentada no meu colo à quatro anos atrás e a ver, a ela e a todas aquelas crianças que até hoje não esqueço, suspirarem de alegria, ao verem aquelas três mil luzes acenderem-se nos seus olhos translúcidos, de quem não sabe bem o que os espera. 

Este é um mês diferente. Mas não é por isso que ora o escrevo. Só quem lá perdeu um bocadinho dos seus dias entenderá. 

Lembrem-se que em cada Natal supérfluo há pelo menos uma criança sem um presente para abrir, um abraço para receber ou um beijo de boa noite para adormecer. Lembrem-se, como eu, que ao passarem por ali, aquela (e as outras todas do país e do mundo) não é mais uma casinha cor de rosa. É uma realidade que poucos querem ver. 

Pratiquem o bem; se todos o fizermos alguém ficará melhor.

À Mariana, a irmã que eu sempre quis trazer para casa, e a todas as outras crianças que ali moram, os meus votos de sorte e esperança de um mês de Dezembro feliz. A todos os que dão a vida por elas, igualmente.
Comprometo-me a deixar-vos como sempre a minha prenda.

E se o futuro não vos sorrir como desejo, lembrem-se que um dia alguém chorou por não poder fazer mais por isso. 


Patrícia Luz
3 de Dezembro de 2013 






sábado, novembro 30

Odeio-te, mas é mentira.


Foto: Filipa Marques (www.behance.net/philipa-marques)

(Três simples palavras que te vão por a tremer, de medo ou de felicidade)

Antes de me fechar no meu pequeno mundo, envolvida nas minhas leituras habituais de fim de noite acompanhada de uma música qualquer que me faça viajar sem sair do acolchoado tapete do meu quarto, local onde gosto de abraçar as palavras dos outros, a meia luz, com aquele aroma a baunilha no ar, decidi escrever-te. Podia não o fazer. Que no fundo era o que devia ter feito: nem sequer ter começado; mas agora que aqui estou, cá vai disto.

Gosto de ti.

Parece estúpido dizê-lo, quanto mais senti-lo. Também pensei o mesmo quando o murmurei para mim mesma. Como pode alguém em tão curto espaço de tempo arrebatar o coração de alguém desta forma? Preferia não saber sentir, já que explicar é quase impossível. É caso para dizer que.. acontece! A empatia entre as pessoas não se escolhe. Não existe um relógio por aí à deriva a decretar a hora certa para gostar de alguém. Andamos aí aos encontrões uns com outros e olha.. ás vezes gostamos. Acontece gostarmos, como poderíamos odiar. Afinal de contas a relação entre as pessoas é assim, um enigma: nunca ninguém sabe se resultará ou não; se durará dois dias ou a vida inteira. E é por isso que se eu antes acreditava que o fim de uma relação merecia o seu devido luto, hoje acredito que para cada luto haverá sempre uma primavera à nossa espera. E às vezes ainda o Verão vai a meio, mas tarde ou cedo, ela chega.

Desde o primeiro dia que gosto de ti. E desde o primeiro dia que não quero gostar de ti. Controverso, mas sincero. Os amores da minha vida, que o serão para sempre - e aqui a palavra sempre ninguém pode julgar, porque se há coisa que não volta para trás é o tempo passado-, fizeram com que me protegesse de tudo o que gosto. Porque normalmente são essas coisas que nos provocam danos maiores, que não nos matam mas moem, dia após dia, muitos dias, às vezes. E quem melhor que tu para entender isso, digo eu.

Já ninguém quer carregar peso tão grande, como aquele que acarretam tão simples três palavras. E eu não to pedia. Eu entendo-te melhor que ninguém, penso eu. Mas a verdade é que já ninguém quer gostar de ninguém sem ter a certeza que vai ser correspondido, já ninguém quer saber se alguém gosta de si pelo simples facto de correr o risco de não gostar assim tanto dessa pessoa como, achamos, que ela gosta de nós. Por não ser a altura certa (há altura certa para gostar de alguém?).
Saber que alguém gosta de nós pode tornar-se numa "bomba-relógio"; pois para correr o risco de termos que ter uma conversa esclarecedora quanto aos sentimentos, mais vale estar quieto. Desistir de tudo. Responder com um silêncio absurdo, desolador. Fazer-se desentendido(a). Ou na pior das hipóteses, deixar de gostar um bocado dessa pessoa com medo que o sentimento seja mútuo. Sim, porque isto acontece mesmo. Nunca ninguém gostou de melo-dramatismos. As pessoas resolvem-se assim no século vinte e um. E aquilo que podia resultar num "eu também" ou "eu também, mas não da mesma forma" ou apenas num "de que forma?", morre muitas vezes no silêncio do medo de saber a verdade sobre o que três simples palavras querem dizer; com medo de consequências maiores, com medo de ter de pontapear um "eu não gosto de ti assim". Com medo de fazer alguém desistir antes de tempo de algo que no fundo, nós até gostamos um bocadinho também.

No fundo isto é a prova de como toda agente foge com medo da sinceridade, da honestidade para com alguém e consigo próprio, muitas das vezes.  Chama-se a isto ser correcto? 

Isto é a essência humana a querer desentender-se. Quem seria eu para mudar isso. Agora percebo porque é que há tanta falta de amor entre as pessoas. Já ninguém pode gritar aos céus o quanto gosta de alguém, senão na melhor das hipóteses terá que fazer as malas e fugir atrás dela para o outro lado do mundo. E de avião, porque com a rapidez a que as pessoas querem fugir de um gosto e ti, a pé não se safam.

Desculpa se três palavras tão pequenas te assustam. A ti e a metade do planeta terra.
Mas isto é mesmo verdade. 

Patrícia Luz
26 de Novembro de 2013


sexta-feira, novembro 29

Nazaré

Escreverei com o coração na boca ao amor que me une a esta terra. 

Não é de hoje. Talvez desde o meu terceiro dia de vida, altura que regressei em corpo àquela que foi a terra que me viu crescer durante uns anos, que há algo muito especial que nos une. Sempre o expressei. Sempre me orgulhei. Sempre o mostrei de corpo e alma. E assim o continuarei a fazer.

Aos que nunca lá foram, não vão entender o que vou dizer. Porque a magia das coisas tem que ser vivida para poder ser expressada e entendida. Aquela terra é mágica. As casas todas caiadas a branco transmitem a paz que Deus não conseguiu implementar na terra. Há um enigma em todas as ruelas, estreitas, que transpiram tradição em cada fogareiro deixado à porta, muitas das vezes com brasas que deixam fugir o cheiro a sardinha assada naquelas tarde solarengas de verão em que todos os caminhos vão dar à praia. À praia. Quantas histórias podia tão simples palavra contar? Todos os nazarenos que lerem isto vão entender. Não há refúgio maior que aquele. Não há tesouros tão bem guardados como aqueles que aquela praia guarda. Se ganhasse boca de certo que se inventaria uma nova bíblia. Quantos namoros começaram sentados no paredão da marginal? Quantas aventuras de verão tiveram lugar nas tradicionais barraquinhas à beira mar montadas? Quantas lágrimas se enterraram nas pedras do porto de abrigo? Quantas memórias guarda o farol? Quantos carnavais se viveram ali "àrrebolar"? Quantas noites ali se passaram? Quantos beijos, sorrisos, gargalhadas .. se perderam ao som do mar? O mar. O som do mar. O que seria da Nazaré sem o mar. Há um mistério em cada onda que ali morre. Há uma força inexplicável. Não há mar maior do que aquele, azulão de inverno, translúcido de verão. Há segredo! Lembro-me de acordar naquele que era o meu quarto na urbissol e vislumbrar as tempestades de inverno ao longe, lá no fundo; acho que foi mesmo aí que me apaixonei para a vida pelos raios e chuviscos a atacar a imensidão daquele mar que via da janela. Também aquela casa é mágica.
Aquele cheiro a maresia é inconfundível. Penso que todos os amantes do mar deveriam ter o luxo de poder viver aquele cheiro todas as manhãs. 

E por falar em amantes do mar, quem é que conseguiu viver a infância sem comprar uma prancha de bodyboard de esferovite? Como me lembro de comer areia às colheres com o meu irmão nos quebra-côcos gigantes para o nosso tamanho onde nos enfiávamos sem quase saber nadar. Não sei como ainda estou aqui para contar esta história e com os dentes bem de saúde.  Aquelas tardes até ser noite, de lábios roxos da gélida água onde o sol se punha no cantinho do promontório, raiando a vila de uma cor dourada que a tornara mais bonita ainda, de bola de berlim na mão - que era única maneira da mãe nos arrancar da água -, serão para sempre inesquecíveis. 

Não sou nazarena de raiz, mas sou de alma e coração. Lembro-me da minha ama. Estas fotos não me fazem esquecer dela. A dona Manuela, tratava-me como uma filha, dela e da terra. Vestia-me a rigor: sete saias e brincos de ouro. Quantas terras em Portugal vestem a tradição desta maneira no dia-a-dia? Quantas terras se amam pela pronuncia que têm? Que saudades! Que saudades de ouvir o entoar daquele "óh môr.. que vames fazere hôje? Brincar ná âreia e vere o már? Ou vames à batel comer um barquilhêre de chocolate?". Era uma princesa nas mãos daquela mulher! Como qualquer pessoa será nas mãos de uma nazarena. Não há raça como aquela! Amor por quem pratica o bem, ódio no corpo a quem quer o mal. E tenham cuidado que ódio no corpo pode querer significar muita coisa. 

Enfim.

Por tudo isto é que fico triste agora. A Nazaré é o orgulho de quem lá morra desde que me lembro. A Nazaré nunca deixou de ser linda como sempre a vi, sempre esteve à beira mar plantada, com um mar inexplicavelmente diferente de todos os lugares do mundo que tive até hoje o prazer de conhecer.
Quantos homens de trabalho nele morreram, desbravando as ondas a remo para pôr o pão de cada dia nas mesas das famílias que preferiam não pensar na fome que sentiam, dada a angustia vivida em cada noite em branco sem saber se voltariam a ver o amor das suas vidas ou o pai dos seus filhos? Quantos bodyboarders locais desbravaram a praia do norte a braços e voltaram a terra, sem nunca serem reconhecidos pela sua semi loucura, num único telejornal português? Quantos depositaram a sua vida na paixão que os une à adrenalina? Passou esta terra de um dia para o outro de uma sombra em que nunca viveu para o esplendor que há imenso tempo tinha, porquê? 

Triste não, com uma certa mágoa feliz. Feliz porque esta terra está agora onde devia estar à muito tempo, nas bocas do mundo. Nunca seria preciso vangloriar um Americano, com todo o respeito e admiração que lhe tenho - e garanto -, se vivêssemos num país com amor próprio. Amor às suas gentes, ao seu povo, às suas tradições, à sua beleza, à sua ESSÊNCIA. Isto é apenas um exemplo de um dos segredos que estava escondido. Olhemos à volta! Quais mais haverão assim por descobrir?


Patrícia Luz
29 de Novembro de 2013

curioso, escrevi primeiro o texto e só depois vi este video:

Conselhos:
- Á parte das ondas, venham experimentar o melhor Carnaval (http://www.youtube.com/watch?v=LR9V0UeABHg); À parte das ondas, venham viver uma passagem de ano em cheio; À parte das ondas, venham comer bem e beber bem.








quarta-feira, novembro 27

21ª Primaveras

No meu dia de aniversário quero relembrar três coisas que um grande amigo um dia me escreveu e lembrá-lo de como isso mudou a minha vida. No meu aniversário, porque são palavras assim e amigos como este que me fazem ver o lado bom da vida. Obrigada a todos os que perderam um bocadinho do seu dia para me felicitar; obrigada àqueles que se têm dirigido a mim encorajando-me e incentivando-me a não deixar morrer o melhor de mim, que habita aqui. Obrigada do fundo do coração à minha mãe que será sempre uma guerreira, ao meu avô e ao meu pai que me fizeram a mulher que sou hoje nutrida de valores e amor ao próximo; obrigada ao meu irmão que me ensinou a ser mãe antes de o ser, a crescer antes de tempo e a olhar para a vida com o sentido de justiça que ela merece. Obrigada àqueles que me felicitaram com frieza e demonstraram aquilo que de melhor tinham para me dar, um pouco de quase nada, que guardo também para nunca mais esquecer, porque é assim que a vida nos ensina a gostar mais de nós do que dos outros. Obrigada aos meus amigos de infância que mesmo longe habitam no meu coração para sempre. Aos meus colegas da faculdade que cresceram comigo ao longo de três anos e cujos não podia apagar da minha vida; em especial aos que se tornaram amigos leais que nunca esquecerei. Obrigada à Sara e ao Pedro que mais do que amigos são os irmãos que muita gente gostava de ter, amo-vos como tal; à Francisca por ser um porto-seguro que nunca vou querer perder. E a todos aqueles que de alguma forma entraram na minha vida para lhe oferecer um bocadinho mais de brilho. 
Em vinte uma Primaveras, o que seria de mim sem vocês. 

*
" Não deixes de acreditar e defender os bons valores que tens. Há muita porcaria aí fora, mas tu estás certa. Não te conformes com o que vês de errado. Mudar é possível. Mantém esse espírito. Pessoas como tu podem mudar o mundo para melhor e a mudança começa por quem está à tua volta. Nunca te feches para o mundo por uma pessoa que não te mereça. És uma espécie em vias de extinção e qualquer pessoa gosta de poder contar com alguém como tu. E mesmo que alguma vez não pareça, Vai ficar tudo bem".

Patrícia Luz
27 de Novembro de 2013, ao som de Natiruts.





domingo, novembro 24

Sabádos sem amor


Mais um dia se avizinhava. Por entre as gretas dos cortinados que ficaram semi abertos do dia anterior entrava a primeira luz de uma manhã que já se prolongava à várias horas. Era sábado. E o que era dos sábados sem umas horas a mais de ronha. Escondia a cabeça debaixo da almofada; enrodilhava-se nos edredons  cuja forma tinha sido destruída pela preguiça de se levantar e solucionar os fechos de luz que a incomodavam. E ali ficava.. perdida nas horas, alternando o sono leve, com sonhos rápidos; resmungando subitamente com a luz que não a deixava permanecer neles por mais tempo, quando eram bons, pensando no quão parva era em não se levantar de uma vez por todas e aproveitar aquele sábado como se fosse o último da sua vida, acabando sempre por se enroscar um pouco melhor, fechar os olhos e sorrir desenhando assim a ideia de um descargo de consciência corporal, que se fala-se, certamente diria "que se lixe!". E ali permanecia... 
Não voltara a adormecer. Chovia. Com aquele acordar meio adormecido não se apercebera de que aquela luz morbida era de um dia cinzento e que talvez isso explicasse muita coisa: toda a nostalgia que o seu corpo adivinhara, talvez. Chovia. De olhos postos no tecto, coberta até à ponta do nariz, ouvia a chuva ecoar na janela. Conseguia imagina-la gota por gota a escorrer pelos vidros a baixo como lágrimas em caras tristes, naquele silêncio ensurdecedor que era a sua mente a pensar em como poderia aquele sábado tornar-se num sábado inesquecível.  Como poderia uma solteira aparentemente feliz com a sua vida, acordar com aquele sentimento de depressão nostálgica e utópica ? Talvez porque aquele sábado não fosse passar disso mesmo, de mais um sábado. Fechou os olhos. Que bom seria fechá-los enroscada num abraço apertado ou num daqueles beijos ensonados dos casais que acordam juntos em dias de chuva e fazem ronha como ela. Abri-los com crepes ao pequeno almoço na cama, e por ali permanecer sem horas nem minutos, devorando pipocas por entre séries e filmes, beijos, abraços e ... amor. 
Amor. Pois é, no final de contas esse era o sentimento que lhe faltava naquele momento.
Como poderia uma palavra tão pequena mudar o sentido daquele que podia ser um dos melhores dias da sua vida? 


- "Hora de Almoço!, chamavam-na.
Decididamente, aquele era um sábado destinado a ser igual a todos os outros.

(saudades de poder ser uma boa namorada, parte I)

Patrícia Luz
24 de Novembro de 2013



Fotos por: Filipa Marques (www.behance.net/philipa-marques)

quarta-feira, novembro 20

Amar não é isso

Uma vez também eu fui burra. Fui-o durante muito tempo. Uns anos, para ser mais precisa. Eu amava com o coração na boca. Durante tempos, eu deitava-me todos os dias a imaginar o dia em que voltávamos a estar juntos, fechava os olhos na esperança de acordar ao teu lado ou de te rever naqueles que tinham sido os melhores dias da minha vida até então, os quais passaram um pouco sem lhes dar o devido valor - como a maior parte dos dias que nos ficam na memória, persistindo -, porque nunca imaginei o seu fim. Era uma miúda. Uma miúda tola que via o fim do mundo feliz ali, por ter tido a sorte de te ter só para mim e nada mais importar além disso. Eu amava-te. E isto ninguém pode negar. Tu sabias.
Eu fui burra. Fui burra na medida em que te amava e não via o reverso da moeda. Apesar de ver, não queria ver. Eu habitava em ti. Eu habitei em ti durante muito tempo: disso tenho certezas e hei-de ter por muito que me mintas. E se assim era, porque nunca nos amámos novamente na mesma medida? 

É aí que entra a explicação para a minha burrice aguda. Para a minha e para a burrice de todos os que amam na esperança de reaver aquilo que morreu um bocadinho, mas nunca totalmente - porque amores desses na verdade nunca morrem. Nunca, porque até agora ainda te guardo, como se pode ver nestas palavras que escrevo, livre de ressentimentos. 
As histórias de amor começam quando um de nós ama. Basta isso! E é mesmo aí. Quando damos por ela já está. Tudo estragado!  Tudo estragado porque histórias de amor em que um só por si ama, das duas uma, ou sofrem a grande reviravolta esperada e têm um final feliz, ou estão arruinadas, destinadas a não passar do "pior que estragado". Porque sejamos francos, as histórias de amor acabam como começam: quando apenas um ama. Ninguém minimamente inteligente quer ser a vela de um barco mais que naufragado.

E, convenhamos, quando digo amar, refiro-me ao real sentido da palavra, talvez remontando ao século dezanove, quando amar não significava estar habituado à presença de alguém, querer passear no teu carro para sempre ou viver confortavelmente uma relação que até não me faz nenhum mal. Porque desenganem-se aqueles que namoram há anos e acham que têm na mão para a eternidade aqueles com quem se deitam e acordam todos os dias. Amar não é isso. 

Amar é não ter propriedade de ninguém. É acordar todas as manhãs com o sentimento de sorte por termos alguém tão especial ao nosso lado, capaz de lutar connosco e por nós. É sentir que a qualquer momento essa pessoa nos pode fugir das mãos e por isso querer andar com ela de mãos dadas, com força, para todo o lado. Amar é aproveitar as coisas simples da vida e fazer delas únicas. É trocar o dinheiro por o luxo de provocar momentos. É pensar nos próximos quarenta ou cem anos e ver essa pessoa sempre na nossa vida.


A minha burrice aguda sempre foi essa mesmo: amar. 
E assim me mantenho fiel. 

Façam-no. Amores grandes um bocadinho desarmados, não são amores para a vida. 
Amizades, talvez devam ser para sempre.

É assim que te vou guardar. 
Apesar de tudo.

É assim que o devem fazer também.

Patrícia Luz
20 de Novembro de 2013



Foto: Filipa Marques (www.behance.net/philipa-marques, visitem!)


terça-feira, novembro 19

Faz frio aqui.

Faz frio.
Gélidos, os meus pés competem com o coração. Que bate, como eles na cadeira onde me sento, de ansiedade. É assim que ora escrevo, um bocado morta-viva de sentimentos. No lusco fusco de sempre do meu quarto - e da minha vida - ecoa, como em todas as noites em que aqui me perco à tua espera, a música que me ocupa a mente de demais pensamentos atrozes àquele que é o teu silêncio. Já te disse como odeio o silêncio? O teu. Nunca. Faz frio. Guardo-o. Vou guardá-lo sempre. Também em silêncio, porque é assim que deve ser; nunca poderia ser de outra forma.
Sinto-me estúpida. Aqui sentada, à espera, de nada. Quantas vezes nos sentamos assim à espera de alguma coisa a que chamamos nada para não sofrer o dissabor de ser mesmo isso, nada?! Fazes-me falta aos bocadinhos. Já disse isto não já? Que estúpida. Há coisas que nunca deveríamos dizer. Tinhas razão. 
Não me fazes falta nenhuma. Maldita a hora em que entraste na minha vida, na minha cabeça.  
MintoMinto... Minto... 

Simpatizo contigo. E isso era o que eu temia...


Patrícia Luz
19 de Novembro de 2011




Fotos: Filipa Marques (www.behance.net/philipa-marques, visitem!)

segunda-feira, novembro 18

Às sortes e às mulheres

Ao meu querido irmão
 e a todos os homens que amo e que ainda não encontraram a mulher das suas vidas.


Desejo-vos sorte. 
Tirei este bocadinho para vos dirigir palavras de coragem porque vão precisar delas. Assim como também eu precisarei enquanto não encontrar alguém que seja a metade da minha, ou até perceber que esse alguém está mesmo aqui ao lado (como a maioria das vezes está e pouca gente se dá conta). Mas não vos venho falar de homens. Quem melhor que vocês para se auto-conhecerem e saberem cuja matéria vos compõe e vos faz tão importantes na nossa vida, mesmo quando metade de nós, mulheres, vos desvaloriza por darmos primazia aos desgostos que todo o ser humano sofre. Também tenho esses dias. Mas ainda não me apeteceu abater a vossa espécie porque a vida faz todo o sentido convosco por cá a dar-nos dores de cabeça e dissabores, flores ao pequeno almoço e noites de amor ao jantar. Tiro-vos o chapéu. Mas desejo-vos sorte. 
Desejo-vos sorte porque a vida começa a estar complicada para vocês, a vida.. o amor, as relações. Nos últimos seis anos isto deu uma reviravolta que eu não acompanhei bem, por andar ocupada sabe-se lá com quê. Parece que as mulheres tanto quiseram ser como os homens, por tanto os odiarem, que hoje existe uma colectânea de seres a quem não sei bem que nome dar.  Quando o pai se sentava à mesa com a mão apoiada no teu braço com todo o carinho e amor que um pai tem em ver o seu único filho ser feliz e realizado no campo amoroso e por vezes te dava palmadinhas nas costas alertando-te para o perigo que era o sorriso das mulheres, não percebia bem o que queria ele dizer e ficava pensativa, mas hoje lembro-me muitas vezes dele quando saio às quintas-feiras e Sábados à noite e percebo o que está por trás daqueles lábios vermelhos e curtos vestidos de que se fazem acompanhar na tentativa de desviar as atenções daquilo que nenhum de vós verá a olho nu. 
A isso chama-se essência. E essência, actualmente, poucas mulheres têm. 
Desejo-vos sorte porque mulheres cuja cultura lhes saia pelos olhos muito antes de abrirem a boca, a inteligência transpareça em todos os seus gestos majestosos e a ousadia seja um mistério que fica por descobrir nos olhares que pairam no ar, já não se encontram ali ao virar da esquina, como quem decide comprar companhia casual com luxo. Porque luxo é encontrar uma mulher dessas nos dias de hoje, quando a maioria das mulheres virou montra de loja: chamativas por fora e ocas por dentro. Baças no segundo encontro porque o brilho que tinham na noite anterior fugiu quando chegaram a casa e pegaram o gel desmaquilhante, frias e distantes porque o que tinham visto em vocês fugira com o desvanecer do álcool nas suas veias; hipócritas, oportunistas e fúteis quando ao lado da vossa scooter, que tinha tudo para ser o veiculo do amor para eternidade, passar um dos vossos, quem sabe, talvez, amigos de bmw ou mercedes e isso merecer atenção redobrada. Burras quando trocam aquele que seria o homem das suas vidas por alguém que com dois dedos de conversa as leva a desafiar o amor que outrora tinham, por desejos momentâneos que não sabem controlar e quase sempre as deixam em piores lençóis do que aqueles em que se deitavam sempre com um beijo de boa noite e torradas ao pequeno almoço.
Por isso, escuta-me. Escutem-me. Se tiverem a sorte de encontrar a essência certa das vossas vidas, guardem-na com força. Tratem-na bem. Amem-na todos os dias como se fosse o último e não deixem nada por lhe dizer, nem nada por fazer, porque meus amigos, em época de "guerra", pensem:
Quantos cães andarão à procura do mesmo osso? 

Desejo-vos sorte...
Que ela esteja do vosso lado, porque vos amo.

Patrícia Luz 



Foto: Filipa Marques (www.behance.net/philipa-marques, visitem!)

quinta-feira, novembro 14

Ria-se





... Ria-se. 
Que bom que era vê-la rir assim. Perco-me no tempo se me puser a pensar há quanto não a via ser feliz daquela forma. Feliz não, sincera. Sincera consigo própria. Porque feliz é uma palavra complicada, assimétrica, relativa. E aquilo era tudo menos relativo. 
Era absoluto. Ela ria-se sem saber bem porquê. A sinceridade das atitudes também é assim, não acham? Não se pensa bem nelas, acontecem e seja o que Deus quiser. Ela ria-se. 
Ria-se de corpo e alma. Poucas pessoas o conseguem fazer, mas ela... nem sei. Os olhos tinham virado boca: eles falavam em todas as dimensões, a boca estrelas: o sorriso dela era desconcertante, a barriga um turbilhão de coisas: borboletas stressadas, abelhas chateadas, corações ofegantes; sentia-o ao longe. 
Estava linda! 
E podia nem estar. Mas naquele momento eu vi verdade - uma luz invisível que algumas pessoas têem -, e se ela era verdade naquele misto de emoções que transmitia sem querer, então eu podia amá-la para o resto da minha vida.


(Momentos)

Patrícia Luz
14 de Novembro de 2013







terça-feira, novembro 12

-me.




Fazes-me respirar baixinho. Sorrir às escondidas. Corar sem querer.
Fazes-me bem aos bocadinhos.O que é que há de melhor do que amar a vida aos bocadinhos? 
A vida é o que fazemos dela. E eu não lhe tenho dado tréguas. Don't wait for the perfect moment, take a moment and make it perfect. Aprendi a viver assim. 
Ás vezes é mesmo isto que é preciso. Sorrir num dia de chuva e chorar de alegria num dia de sol. Aproveitar o melhor do que de mau nos acontece e fazer em dobro o melhor por quem nos alimenta o sangue que nos corre nas veias. E se ninguém estiver a jeito, cá estamos nós, para nos mimar-mos um bocadinho mais. Porque se o melhor da vida é aos bocadinhos, que a nossa vida seja melhor assim também; E se o futuro a Deus pertence, porque não sair agora porta fora e fazer tudo o que nos dá vontade? 

(Esperança)

Patrícia Luz
12 de Novembro de 2013

quinta-feira, novembro 7

My shelter

Como é tradição não podia deixar de escrever para ti. Como é e como será para sempre até que os dias me matem. És a pessoa mais importante da minha vida e como tal, por muito que o meu tempo seja escasso, terei sempre tempo para ti, para escrever para ti, para fazer o que for preciso por ti. "Tens tempo? Claro que tenho tempo. E ainda que não tivesse, inventava-o", nada mais acertado para transmitir o que tento dizer. Que bom que é ter alguém como tu ao meu lado, sou a mulher mais sortuda à face da terra; escrevi-o ontem. Escrevi-o ontem no intuito de o repetir aos céus todos os dias da minha vida porque não há verdade mais absoluta. 
Admiro-te em todos sentidos. És o avô mais giro de todos os tempos, especialmente quando te faço vestir aqueles polos da lacoste para irmos só os dois almoçar fora. Sabe tão bem almoçar fora só contigo. Acabar a refeição em dez minutos e ficar uma hora e meia à espera que termines. É bom olhar para ti nesse gesto pachorrento de quem já não tem nada a perder. "Pede uma sobremesa.. pede o que quiseres", como quem se desculpa da demora. És o melhor avô do mundo. Comeria as sobremesas todas do mundo para te poder ver para sempre nesse gesto de calma e sabedoria falante nos intervalos do garfo que levas à boca. 
És o melhor homem que conheci em toda a minha vida. O  melhor marido, o melhor pai, o melhor avô. 
Agradeço-te a dedicação, a educação, as horas vagas. O silêncio das cestas dormidas em conchinha pelos pinhais fora, a comida que me puseste na mesa, as vezes em que fui à escola porque só tu me levavas. Agradeço-te os dias passados na terra, na vindima, na cerâmica, na ida à maré; os banhos de mangueira, e os jogos de futebol do benfica em que não te calavas. Aprendi tanto contigo, aprendo tanto contigo. 
My shelter.

Obrigado por existires,
Patrícia
7 de Novembro

P.s. Por mim ja estava ao pé de ti; estou a fazer pressão psicológica à mae para te ir dar mil beijinhos e abraços. 






terça-feira, novembro 5

Mudança

Mudança. Tantas vezes se fala nela e tão poucas se actua para a concretizar.
Tenho ouvido falar muito por aí dela, tanto que até eu já a invoquei em vão. Mas desta vez foi diferente. Nos últimos três meses a minha vida deu uma volta de trezentos e sessenta graus; apesar de poucos o terem notado, isto foi mesmo verdade. E como o velho ditado diz que devemos sempre mudar para melhor, aproveitei o balanço das coisas menos boas que me foram acontecendo e decidi mudar tudo. Comecei por olhar para o amor com outros olhos; olhos de quem prefere ver tudo nu e cru, para não se decepcionar com as surpresas das histórias boas de mais para serem verdade. Depois fiz-me à vida, arranjei um emprego e apesar de ter sido óptimo apercebi-me aos poucos do canibalismo existente no mercado de trabalho em que tudo se resume ao "primeiro eu, depois tu". Emagreci uns quilos à pala do desgaste a que não estava habituada, e que óptimo, que agora posso usar a palavra mudança no meu roupeiro também.
Com isto veio o meu primeiro ordenado, e o segundo, e o terceiro.. e se nunca antes tinha recebido uma mesada, esta seria a altura ideal para proceder à única mudança que faltava: o meu odiado quarto.
Nos últimos meses superei-me. Sinto-me nova, por dentro e por fora. E se no último ano tudo foi mau, aguardo que a mudança a que me obriguei me leve a um porto melhor, seguro e sem grandes sobressaltos, porque agora é a minha vez de ser feliz. 



Um obrigada à Sara que, como sempre, nunca me deixou só.


Patrícia Luz
5 de Novembro de 2013

(Deixo-vos algumas fotos da última mudança e de uma das minhas outras paixões: a decoração. Espero que gostem!)


ANTES: 
 tons, amarelo e laranja;

DEPOIS: