quarta-feira, dezembro 4

O Ensino Superior Português

Sentados àquela mesa conversávamos. O tempo tinha que passar e assim escolhemos passá-lo. De professor para aluno com as cartas sobre a mesa: o ensino superior português, era o tema. Diante de umas urnas despidas de si próprias, pela falta de interesse - como tem vindo a ser habitual - dos estudantes que tanto as deviam abraçar, o olhar era de mágoa, alternado pela inconformidade e revolta em algumas palavras, confissão noutras avançadas a medo; realidades no fundo. O horizonte a que nos submetíamos e do qual estávamos bem cientes.  

Trágico. Trágico é a palavra mais acertada para definir o ensino português actualmente no nosso país. O declínio a que nos sujeitámos nos últimos anos culmina num buraco sem fundo à vista; parece ninguém se ter apercebido ainda no saco roto onde nos enfiámos. Andaremos assim tão preocupados com as nossas vidas a curto prazo que não tenhamos ainda parado para pensar naquilo que nos rodeia? Não. Enquanto estudante quero crer que não; todos vemos o que não queremos ver. 

Ora vejamos. Perfazem dez anos após a implementação do processo de Bolonha, que com todas as vantagens que, acredito, tenha trazido na uniformização da Europa como um espaço global de ensino coerente e competitivo, veio alterar drasticamente o ensino superior português num ponto, na minha opinião, fundamental: a duração dos cursos. Passaram, como a maioria de vós sabe, as licenciaturas de um modo geral a ter a duração de três anos, salvas excepções onde se entende que seja necessária uma maior especialização. E é aqui que mesmo que começa o enredo de uma história que até hoje enfrenta dias pouco felizes. 

Assim se procurou fazer frente ao tão citado provérbio português «de pressa e bem, não há quem». Uma guerrilha um pouco mal sucedida a meu ver. Trocados os cinco anos habituais, onde o conhecimento era transmitido na sua conta, peso e medida, pelos três em que a vida académica se resume a uma correria desenfreada àquele que será o próximo passo - o inicio de uma carreira profissional - estaremos nós preparados para o enfrentar? 

Creio que não. 
O ensino português de antigamente preocupava-se com um dos grandes problemas existentes no nosso país. Resumidamente, dava primazia à qualidade e não à quantidade. Cingindo-me ao curso de Gestão, de que modo podemos comparar um licenciado em cinco anos sujeito a três estágios integrados numa empresa durante o seu percurso académico e um trabalho final de curso que simplesmente sumiu do programa, com um aluno da actualidade, licenciado em três e com um estágio que interessa mais às empresas do que propriamente a quem o faz dado o conflito de interesses a que assistimos por parte destas no usufruto de mão de obra barata na satisfação, muitas das vezes, de serviços mínimos durante as férias de verão? Não digo que isto seja a regra geral, mas quantos de vocês deram por ela a "encher chouriços" naquela que devia ser a vossa rampa de lançamento na carreira para a qual depositaram o vosso esforço e dedicação?

Muitos. 

«Os cursos que não são cursos, existem.» Quando existiam cursos a sério, dizia aquele professor triste com o declinar da paixão a que dedicou toda a vida, o ensino superior era visto como a voz mais alta do povo. Assistimos a um divórcio entre o conhecimento e a sua prática. Destruiu-se o ensino tecnológico, destruiu-se o ensino politécnico e caminhamos cegamente na destruição do ensino universitário. 

Somos licenciados aos pontapés sem credibilidade. Licenciados empilhados numa das estatísticas mais infelizes do nosso país a que chamamos desemprego. Empilhados não, pendurados. 
Não acreditam que o próprio estado dúvida das "ovelhinhas" que educa? Prova disso é a avaliação dos professores. Porque haveriam de prestar um exame aqueles que exercem a profissão há menos de cinco anos? Não deveriam ser esses os mais cultivados a ensinar os mais velhos, a ser a bateria rejuvenescedora das escolas, a ter a frescura de quem tem toda a garra de transmitir os conhecimentos adquiridos, quem sabe, no ano anterior? Pois é. Já ninguém acredita em nós. Como poderemos nós acreditar num futuro risonho, neste país?

A ilusão que dá resposta a esta questão, chama-se empreendedorismo. 
A ilusão que o nosso país vive está em empreender num ensino debilitado que caminha em sentido retrogrado. 


Abramos os olhos.
Porque apesar de tudo isto, o futuro é nosso e é a nós que diz respeito. 
Não cruzemos os braços. 
Se não lutarmos pelos nossos direitos e deveres cairemos para sempre na comodidade de sermos uns falhados conformistas.

Ainda é tempo.

Patrícia Luz
5 de Dezembro de 2013

Esta é e será apenas a minha opinião.





1 comentário:

  1. Ela falou e disse!
    Muito bom mesmo.. puseste em palavras aquilo muito nós pensamos ou já nos passou pela cabeça muitos espero pois caso contrário não é apenas o ensino mas também o ensinado, mas sejamos honestos, como é possível não desmotivar quando esta é a realidade pura e dura.. Força de vontade, e crer! E como dizes, nunca, mas nunca, face a alguma adversidade baixar os braços!

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