terça-feira, fevereiro 4

A debate




Não querendo bater mais no ceguinho, como se costuma dizer em boa gíria portuguesa, não posso deixar de me pronunciar face à vontade que tive de saltar para dentro da televisão ontem à noite, ao assistir ao debate emitido pela rtp1 cujo tema incidia sobre "As Praxes: sim ou não?". 
Apesar de já ter transmitido a minha opinião anteriormente aproveito para encerrar o assunto em modo de rescaldo.  

Acredito que nunca antes um debate da rubrica "Prós e contras" tenha sido assistido por um tão elevado número de estudantes. A prova de como não somos uns tristes adormecidos que por aí andamos e que no fundo ainda nos conseguimos erguer nas adversidades e ter algum peso nesta sociedade que tem prazer em nos enxovalhar, em nos arrumar debaixo do tapete e espezinhar com força como se nos tratássemos de uma pedra no sapato de um país que atravessa uma crise não só de dinheiro, mas de ética, moral e cívica. Contudo, isto não deixa também de ser a prova de como somos - e isto não é de agora - um povo que fica muito à margem do leito principal. Isto porque, verdade seja dita, com a lista infindável de problemas com que o Ensino Superior se defronta na actualidade, estar a dar importância primordial a uma temática que até aqui estava em banho maria e com a qual se convivia sem grande aparato é no mínimo passar de cavalo para burro. Aliás, para besta. Que pelos vistos é isso que atormenta muita gente. 

Há duas coisas que fazem confusão na minha cabeça. Não sei se será só na minha, mas espero que sim porque será sinal que sou a única "compreensão lenta" nesta história, que já vem de há muitos anos atrás.

Hierarquização. Quando há uma preocupação tão grande da parte de alguns com o facto de existir uma hierarquia na vida académica que sobrepõem os mais velhos da academia aos mais novos, estarão todas essas pessoas esquecidas que a democracia em Portugal não é mais do que um poço obscuramente hierárquico? Que a vida é uma hierarquia desde que nascemos? Que os meus país terão mais autoridade sobre mim até determinada altura, altura essa em que atingirei a maioridade, por exemplo, que numa empresa o meu patrão terá um papel preponderante no meu crescimento profissional ao crucificar os meus erros e dando-me a mão para vencer, ou que numa equipa de futebol existe quase sempre um capitão...
O que é a Universidade senão uma família, uma empresa ou uma etapa da vida em que nos despedimos do colo e da protecção e somos entregues aos bichos? É aqui que começa uma jornada para o resto das nossas vidas. Não será a praxe das primeiras experiências que nos ensinam a crescermos enquanto seres humanos num mundo que caminha a passos largos para a descentralização da igualdade? Pensemos. 

Liberdade. "Liberdade significa o direito de agir segundo o seu livre arbítrio, de acordo com a própria vontade". Quando é invocada  a "falta de liberdade" num debate público em que se fala de um acto em que os alunos, na sua maioria maiores de idade, tem o total direito de escolha das suas ideologias - e há casos em que não o fazem e depois queixam-se, pelos vistos - eu só posso rir às gargalhadas disto. Assim como poderão os movimentos anti-praxe rir na minha e na cara de milhares de estudantes que são insultados e gostam, que são sujos e gostam, que rebolam pelo chão e gostam. Liberdade! Temos a liberdade de gostar, não é? Estúpidos? Talvez. Com gosto? Com certeza. Talvez seja isto que faz confusão a muita gente. 

A mim também me faz confusão porque é que as pessoas se amam e não estão juntas. Gostam umas das outras e não o dizem. Querem-se abraçar e no fundo se repudiam. É a vida. Há coisas que não são mesmo para entender. Fazem sentido para alguns e pronto. A praxe é uma delas.  

Aproveito ainda, para desafiar a Rtp1 a juntar dois estudantes, um praxado e outro não. Qual terá mais histórias para contar? Vivências para recordar? Amigos para a vida? Qual deles chorará quando for a hora de deixar a academia? Qual dos dois voltará à universidade como se fosse a primeira vez no ano seguinte? Haverá diferenças significativas nas médias? Nos anos em que põem termino ao curso? Qual teve um papel mais activo na academia? E na sociedade? Qual dos dois, passados uns anos se vai poder rir quando for pedir um crédito à habitação e do lado de lá do balcão encontrar aquele com quem rastejou na lama e dividiu alhos para difundir o mal pelas aldeias? Afinal de contas, o que fica da praxe também devia ter algum peso na balança das ponderações, digo eu. Viver é muito mais do que respirar. 

É importante referir que quando falo em praxe me cinjo à praxe humana e consciente. À praxe que começa no primeiro minuto com um discurso que explicita que a praxe deve ser encarada como uma brincadeira de integração e que todos os praxantes passaram por ela e continuam ali a sorrir para os caloiros que agora chegam. Que a praxe não é obrigatória e que qualquer um a poderá abandonar ou recusar em determinado momento quando estes o achem conveniente ou a achem imprópria. À praxe que finaliza com os caloiros a implorar por serem praxados. À praxe que é muito mais do que tradição, que é amizade a cima de tudo. 


Não se julgue a dignidade de pessoas que nunca deixam de o ser consoante a liberdade das escolhas que tomam.
Enquanto praxada que fui e praxante que ainda sou, considerei-me Digna Besta, Digna Caloira, Digna Perua, Digna Manceba, Digna Académica e actualmente Digna Veterana. Honrei o meu percurso académico da maneira que escolhi e isso já ninguém me tira. 

É lógico que é uma questão controversa e dá lugar a vários pontos de vista. Respeito e concordo com alguns. Não sou a favor de muita coisa na praxe e não repudio totalmente pontos tidos como fundamentais nos movimentos anti-praxe, mas parece-me de bom tom que haja um meio termo capaz de solucionar esta bomba-relógio que decidiu aterrar na imprensa portuguesa. Que o bom senso prevaleça a cima de tudo. 


Patrícia Luz 
4 de Fevereiro de 2014


Ps. Em relação ao debate propriamente dito:

- Os moderadores não deveriam ser imparciais? 
- Os intervenientes não deveriam ser exemplo das partes? Não só em bons argumentos mas em educação, profissionalismo, postura, ética..
- O público geral não tem direito à palavra? 
- Se nós somos uma geração à rasca, a srª Dr. Fernanda Câncio nasceu fora do prazo de validade? 





1 comentário:

  1. Não sou de intrigas, mas nessa escala a Câncio chegava facilmente a besta, sem chegar a digna.

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