segunda-feira, abril 28

Desabafos





Quando tratas demasiado bem as pessoas
 há uma certa tendência a que elas não sintam a tua falta.
 Deve ser por isso que andamos todos com falta uns dos outros.

Patrícia luz
28 de abril de 2014 



quarta-feira, abril 23

Comunicado ás pessoas que pensam saber mais de mim do que eu própria (parte II). 

Enganam-se. 
Esta é a palavra certa para começar aquilo que tenho para vos dizer. Primeiro porque a maioria não me conhece - talvez o devessem tentar fazer primeiro -, apesar de acharem que sim. Depois, porque as entrelinhas onde me tentam muitas vezes encaixar, são o sitio onde eu vos tento encaixar a vocês. 

Não vale a pena virem tentar sugar-me as entranhas e descodificar a minha vida por entre as palavras que aqui escrevo. Sim, tu. Porque nem tudo o que parece é. E ninguém minimamente inteligente quer falar do que não quer que se saiba sabendo que as paredes têm ouvidos. Deixa-te disso. 

Deixem de se preocupar com a minha vida. Isso é sinal que a vossa não vos dá trabalho suficiente. Ela está bem de saúde e recomenda-se. Deixem as invejas mesquinhas, os filmes melodramáticos e tridimensionais que essas vossas pequenas cabecinhas fazem ao vir aqui achando que um mais um é igual a dois. Mentira. Neste meu canto um mais um dá o resultado que eu lhe quiser dar. Isto é um conselho para a vossa saúde mental.

Isto porque com sorte amanhã acordo com vontade de escrever ao meu namorado imaginário e ainda mato alguém do coração sem querer. 

Não me arranjem amores e dissabores. Fabriquem o vosso que isso é que faz falta. E já agora façam-no com alma e coração: não é com a alma num sitio e o coração no outro.  
Releiam-se em vez de me ler, porque esse é o meu propósito. 

A quem as palavras têm de encaixar não é preciso um desenho. 
A consciência pesa a quem a tem. E a esses, sim, as minhas palavras não têm contornos.

Um beijo, 
 pat


  



Liga(-me)




Engraçada a forma como as pessoas se desligam umas das outras. Sem graça nenhuma. 
Não gosto de perder pessoas. Não gosto mesmo nada de perder pessoas. Em ocasião alguma. Não gosto de não saber das pessoas com as quais sempre me preocupei, pelas quais fiz o que não pude, das quais tanto gosto. Não gosto de perder pessoas muito menos sem razão. Não gosto. Não faço por isso. Não o mereço. Muito pelo contrário. 

Não gosto de silêncios desmedidos. Gosto de silêncio. Não gosto de não saber nada quando quero saber tudo. Ou pelo menos alguma coisa. Não gosto de jogos. Gosto das mãos sobre a mesa. Não gosto da ausência. Quando se torna ausente de mais... 

Gosto de reticências. Mas já gostei mais. Gosto de acabar histórias com ponto e virgula. 
Gosto que se lembrem de mim. De modo que eu o saiba. Já tinha dito que não gostava de silêncios desmedidos certo? Não gosto que esqueçam os dias bons em prol de mágoas que a mim nunca me disseram respeito. Que me risquem do mapa, quando a dada altura fui o caminho certo. Ou pelo menos mo deram a entender.

Gosto de apertar a mão das pessoas que entram na minha vida e levá-las comigo. 

Porque não há erro maior que viver um erro para sempre: perder pessoas importantes para nós.

Não gosto. 


Patrícia Luz
23 de Abril 2014





terça-feira, abril 8

Situações Constrangedoras - parte I





Foi numa urgência que o coração de um familiar próximo a atirou para os corredores de um hospital que nunca antes visitara. E foi esse mesmo coração que a fez sentir o cheiro a álcool esterilizante de que já não se lembrava, por mais umas quantas vezes naquele corredor sem fim que passara agora a visitar com alguma frequência, ainda que por pouco tempo, felizmente. 

É usual a forma como se movimentam aqueles que ali passam e trabalham: atarefados, uns apressados, outros menos; uns de cabis baixo pelas más noticias que recebem, outros felizes por passear o carrinho do novo membro da família que foi pela primeira vez ao médico. Alguns ansiosos ocupando os lugares vazios da sala de espera, aguardando a sua vez. E depois ela, que se sentava ali a ocupar o tempo, enquanto esperava que aquele coração que ali a levara saísse de saúde do gabinete 29. 

Enquanto isso lia o livro electrónico de que se faz acompanhar para todo o lado. Parando entre capítulos, apreciava os pés que em seu torno passavam em vários compassos. Retomava a leitura, distraindo-se milésimas vezes daquelas palavras cativada por sorrisos de crianças que a desafiavam, pelo choro agudo do sofrimento daquelas que ali entravam por piores razões, pelo nome que era finalmente chamado pela enfermeira para visitar o doutor, pelos idosos a quem oferecia o seu lugar...  mas principalmente, pelo rodar da maçaneta da porta que anunciava a bata azul escura da qual não sabe nada, a não ser que os buracos deviam existir para nos enfiarmos quando há olhares que se cruzam sem querer.

Graças a Deus que existem os telefones. Não há buraco melhor que nos acompanhe onde possamos enfiar os olhos quando isso acontece. Fê-lo. Como a maior parte das pessoas que não sabem onde se enfiar fazem quando isso acontece. 

Mergulhou nas palavras de novo. Mas só com os olhos, porque almas distraídas não sabem ler. Enquanto isso, em passos apressados, passara-lhe pela frente, mostrando-se atarefado com o seu trabalho.

 De costas podemos sempre deixar os constrangimentos de parte. Levantou a cabeça e viu-o sumir no fim do corredor enquanto ouvira o cardiologista desejar as boas tardes apertando a mão daquela que era a razão da sua permanência ali. «Vamos, por hoje está tudo!»

E estava realmente tudo. Agarrando apressadamente tudo aquilo de que se fazia acompanhar, era a sua vez de sumir naquele corredor sem fim, mas em lado contrário, o da saída. Em voz de fundo contavam-se as novidades dos últimos exames médicos. Talvez devesse ela prestar atenção à única razão que a tinha levado até ali, mas naquele momento havia a tentação de poder olhar uma última vez para trás na esperança de que o destino lhe provasse que foi apenas um momento. Sem repetições. 

Mas não foi.
Houvessem buracos à sua espera de cada vez que a maçaneta daquela porta se abrira. De todas as vezes que lá teve de voltar.


Felizmente as idas ao hospital terminaram. Não fosse o cardiologista ganhar uma nova paciente. 


Situações constrangedoras - Parte I
Patrícia Luz
8 de Abril de 2014


















domingo, abril 6

Nunca te distraias da vida





«A lição de vida é não dar lições de vida a ninguém»

Estava eu outro dia deitada no sofá, de braços caídos e mãos quase a beijar o chão quando algo me aconteceu. Chovia lá fora. Fazia sol de vez em quando. O tempo estava muito parecido comigo. Triste e optimista em simultâneo. Ora chovia a cântaros, ora o sol brilhava sob um céu carregado de nuvens densas. 

A inconstância desse meu estado de espírito atirou-me para o sofá, ofereceu-me uma melancolia pegada e sussurrou que a minha vida durante aquele dia estava destinada. A não sair dali. A não ver ninguém. A não mentir com todos os dentes que tenho na boca quando encontrasse alguém na rua e tivesse de responder "está tudo bem, obrigada". Não estava. Mas também ninguém precisava saber. A não ouvir nada, a não ser a chuva, alguns trovões anunciados pelos flashes reflectidos na janela e a televisão em voz de fundo. A dormir. A dormir o mais possível. Que felizmente essa ainda é solução para todos os males.

Sou uma pessoa optimista quando tudo está mal. Aliás, não sou. Não sou porque não acredito que nada do que penso vá acontecer de verdade. Mas penso positivo porque é sempre melhor ocupar o coração com o melhor do que a vida nos tem para dar. E quando de vez em quando o sol aparecia, também tudo parecia ficar melhor. 

Foi exactamente nesse dia que conheci a história do Manuel Forjaz. Quando sem querer o comando me escorregou das mãos, por entre o fechar de olhos que quase me faziam adormecer para a vida, e o canal mudou naquele embate com o chão. 

Nesse preciso momento dizia-se "Nunca te distraias da vida" e foi assim que me prendi ao ecrã ao ouvir a história deste grande homem. Naquele dia tudo o que eu estava a fazer era isso mesmo, a tentar distrair-me da vida. A arranjar desculpas para não sair porta fora. A arranjar pensamentos que me fizessem embarcar em nostalgias mórbidas. A anestesiar o meu corpo. A aniquilar uma alma que precisa de ser aberta cada vez que  alguém a tenta fechar. 

Como poderia eu estar ali, naquela figura triste, a ouvir um homem com cancro a sorrir para a televisão e a dizer que «a vida é para ser vivida a sorrir»? 

Nesse dia continuou a chover. 
O Manuel apresentou o seu livro editado recentemente. E eu levantei-me do sofá e fui viver a minha vida, motivada pela ingratidão a que me sujeitava ao ouvi-lo. 

Hoje fez sol. Preparava-me para distrair da vida de novo. 
Era uma da tarde e eu estava na cama. Indecisa sobre o que fazer ou em nada fazer.
«Faleceu Manuel Forjaz», foi a primeira noticia do dia.

Lembrei-me dele naquele dia a dizer de sua boca «Posso morrer da doença, mas ela nunca me matará». Levantei-me da cama e fui viver. Lembrar-me-ei disto sempre que me preparar para me distrair da vida. Lembrá-lo-ei a quem o pensar fazer também.

Hoje fez sol. Não era a sua hora ainda. 


Patrícia Luz
6 de Abril de 2014



foto. Filipa Marques 

sexta-feira, abril 4

Tristes dias felizes




Sorri. Faz palhaçadas e ri-se delas próprias. As pessoas fortes sorriem muito.
Mentira.
As pessoas que parecem fortes sorriem muito. Vi-lhe tantas vezes os dentes ...
Fala muito. Pouco, sobre si.
(Pobres olhos que falam tanto para quem os entende)
Sabe o que é correcto. Mas não o cumpre. Embora quisesse.
Ninguém suficientemente ambicioso desiste do que lhe faz mal, quando esse pode ser o lado certo do avesso em que se encontra.

Sorri. Sorri muito. Mas não é forte. Nem feliz.
Quer ser.
Gosta da vida! Ama muito a vida.
Ama muito a puta da vida.
Mas essa gaja teima em não lhe devolver o que a si lhe pertence.

Harmonia.

Ás vezes é preciso amar uma puta para perceber o outro lado.
Não. Não é esse.
É o lado certo, que se perdeu na incerteza de que um dia tudo voltaria a ser igual.

Malditos, Tristes dias felizes!

Patrícia Luz
4 de Abril de 2014
ao som de Ben Howard






quarta-feira, abril 2

Gostava de me apaixonar por ela. 


Pensava ele para com os seus botões enquanto lhe procurava os defeitos. Esticava os dedos de uma mão de forma a poder encolhe-los por cada um que enumerasse. Distraia-se na sombra do seu pensamento barulhento. Perdia-se por entre os versos da música que trauteava sem querer. Desenhava-lhe o passado nas entrelinhas... 
Enquanto isso olhava os dedos esticados.  Pensava nela. Pensava em tudo o que não gostava nela. Pensava no porquê de não haver (quase-) nada que o fizesse encolher os dedos na certeza que de que aquela era a pessoa certa na hora errada. 

Talvez as pessoas certas venham a horas. E esse seja defeito suficiente para com uma mão segurar a outra e fechá-la num abraço de quem tudo tem a perder e sabe disso

Gostava de me apaixonar por ela ... gostava.

Patrícia Luz
2 de Abril de 2013
ao som de Simple Things