sexta-feira, novembro 28

Um final de tarde carioca

 (...)

Depois de acreditar que o que é bom vem com o tempo, passei a querer esquecer-me dele não fosse o seguro morrer de velho. (Lembrei-me de ti depois de escrever isto; só para que saibas.)

Dirigi-me ao quarto. Despi o fato e vesti-me de mim. Sorriso nos olhos e uma certa magoa feliz naquele que era só mais um aniversário sozinha.

Foi ai que sai porta fora. Sem destino. Sem carteira. Sem telemóvel. 
Levei-me a mim, ao cachecol que não encontro nos braços de ninguém e por isso ainda vou namorando nas lojas da moda, ao caderno, de que me esqueci perdido na mala de que não me fiz acompanhar como é habitual, mas cuja minha cabeça se transforma de vez em quando, e uma caneta ... os meus sentidos apáticos a observar o que me rodeia. Pouco mais que nada. 

Subi ao Parque Eduardo sétimo. Sentei-me no parapeito da paz que é aquele lugar, alinhada com a liberdade daquela avenida pelo verde dos arbustos que insistem em tirar o protagonismo às nuvens cinzentas que passam em tom apressado, anunciando a chuva que cairá entretanto. 

 Num olhar que se perdeu além rio, deixei o tempo passar. Não sei muito bem quanto. Não quis pensar em nada. Quis apenas estar ali, sem alma. A ouvir o barulho da cidade, a ver os carros apressados a moverem-se no marquês como se o amanhã não fosse existir, seres dançantes naquela alameda de plátanos, casais a vaguear de mãos dadas, as luzes a acenderem-se naquele final de tarde gélido como não tenho memória durante este ano, enquanto a minha boca fumava cigarros inexistentes. 

Enquanto isso turistas de varias partes do planeta por ali passavam. Uns animados, outros deslumbrados, todos de máquina fotográfica nas mãos - as quais quase todas passaram pelas minhas também, a pedido. Depois, outras pessoas a sós, que como eu, se sentavam um pouco e iam embora. Algumas delas emigrantes recém chegados, como o Igor, que me interrompeu o silêncio barulhento da cidade para me perguntar até que ponto estar ali seria perigoso, num sotaque meio carioca. 

A noite caia. 
E se eu achava que era a única no parque Eduardo sétimo a tentar arranjar respostas para perguntas inexistentes, quando menos esperava, a minha alma voltou. Durante uma hora perdi-me a falar da história de portugal da qual nem sabia saber tanta coisa; tradições e gentes do mundo; museus e avenidas a visitar enquanto apontava o castelo de são jorge que entretanto brilhava no cimo de uma das sete colinas. A crise em portugal, as polémicas da semana, a politica, o estado emocional do povo português, a qualidade de vida, o clima ... quando ... 

Começou a chover. 

Ficava tarde. Percebeu entretanto que era o meu aniversário. Sem me conhecer de parte alguma, fez a festa por mim. Deixou-me ir dizendo «Obrigado garota, finalmente encontrei alguém simpático nesta cidade; tava vendo que não ia encontrar ninguém sem cara em baixo que quisesse falar um pouco».

Ninguém lhe tinha aberto as portas de Portugal, ainda. 


Patrícia Luz
28 de Novembro de 2014


O igor é o um recém chegado a Portugal, para efectuar estudos para um Doutoramento no Brasil. Como ele há muitas mais pessoas. Sejamos simples e mudemos a vida uns dos outros, assim, porque sim
Obrigado Igor, mudou meu dia de aniversário. 


Que Portugal lhe sorria mais vezes, boa sorte. 


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