quarta-feira, janeiro 21

Uma «gaja» porreira

O sonho de qualquer homem é arranjar uma gaja porreira. Decidi abolir as aspas desta expressão tão tipicamente portuguesa, porque não há maneira melhor de expressar o que é realmente uma mulher a sério.  

Até porque uma mulher a sério nem leva o termo à letra. Se lhe disserem que é ela, é capaz de se rir e banalizar a questão. 

Certamente que estará habituada a baixar o nível quando é preciso assumir o papel de companheira das "jolas" no café da praia - ainda que não as beba -, naquele final de tarde de verão em que não apeteceu regressar a casa para fazer o jantar e o serão se estendeu até às tantas da manhã com os amigos que por vezes nem são os dela, mas que certamente passarão a ser.

Arranjar uma mulher que aceita permanecer noite dentro com o chinelo de praia no pé, o cabelo salgado e ressequido do sal,  enrolada na toalha ainda molhada dos banhos de sol quando o frio aperta, não é para todos. É para quem tem sorte e que na sua grande maioria não a reconhece. A não ser quando os amigos se reúnem para invejar a relação que provavelmente nem ele sabe bem cuidar. 

Uma gaja porreira não tem horas. Mas tem sempre tempo. Tempo para ler o último best seller, responder à mensagem nem que seja dois dias depois, para se enfiar sozinha no táxi e ir até ao outro lado do mundo se for isso que deseja muito. De te dizer que és um atrasado mental com todas as letras e rir-se na tua cara com um sorriso que faz perdoar até o diabo. 

Uma gaja porreira sabe colocar um vestido preto e uns sapatos à altura quando é preciso. À tua altura, se a convidares para jantar. Ela é minimamente inteligente para saber que mais do que ela, existes tu. E que o tango não se dança sozinho. Ela vai aguentar os sapatos até ao final da noite e fazer boa figura enquanto for estritamente necessário, mas vai olhar-te nos olhos e dizer que a melhor sensação da vida é correr as ruas descalça, quando a última garrafa de vinho viajar nas suas mãos.

 E se nessa altura não perceberes que estás perante a mulher da tua vida, lembra-te que certamente não voltarás a encontrar igual. 

Gajas porreiras não se encontram ao virar da esquina.

Patrícia Luz
22 de Janeiro de 2015

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7 comentários:

  1. Queres ser a minha gaja porreira?

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  2. Sabes que a expressão gaja/gajo embora seja assim que se diga em Português, não é de origem portuguesa. Tem origem cigana(os romani), dos ciganos da Roménia. Aprendi isso quando estive lá em Erasmus, depois pesquisei mais na altura pois fiquei curioso. Chamavam gadjo/gadji(eles lá até dizem gadjico/gadjica, por achar estas palavras engraçadas é que fiquei curioso) às pessoas que não eram de etnia cigana, daí ter algum negativismo, depois espalhou-se com a emigração deles até chegar à Espanha e ao nosso país, com uma terminologia mais ampla que a original. Não deixa de ser curioso como nós a usamos muitas vezes seja positivamente ou negativamente. Como na Roménia usávamos muitas vezes estas palavras, é que se meteram connosco e nos disseram para não usar muito pois tinha um aspeto negativo :D

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    1. Obrigado Michel Brito pelo teu comentário. É sempre bom aprender estas coisas! :)
      Centrei-me apenas na utilização que fazemos da expressão em Portugal, por não saber efectivamente a sua origem.

      : ) :)

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  3. Delicioso! Talvez dos meus posts favoritos deste Blog :)

    Continua!

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  4. Está muito bom! Parabéns :-)

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  5. Da mesma forma as mulheres tentam encontrar o seu gajo porreiro, a única diferença é que ele sim, encontra-se ao virar de todas as esquinas.

    Um gajo porreiro é aquele com ideias e pensamentos infinitos, porque o que ele disse há duas semanas atrás não interessa nem ao menino jesus e ja faz parte do passado.

    Un gajo porreiro não se importa de perder tardes inteiras no shopping mesmo sabendo que ele odeia o simples cheiro da roupa nova misturada com a dose abusada de perfume.

    Um gajo porreiro é alto, o suficiente para te fazer sentir segura e tranquila, mesmo sabendo que está todo borrado por dentro. Porque a felicidade dela resume-se a pequenos detalhes. Mas a dele são inúmeras estratégias previamente pensadas mas que não serviram para nada.

    É verdade que as gajas porreiras são raras, ao contrario dos gajos. Talvez seja por este facto que elas gostam de se fazer de difícil.
    O que eu não dava para um bocadinho mais de proporcionalidade à nível de "porreirice" entre sexos...

    Desculpa o desabafo.

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