quarta-feira, fevereiro 4

Homens: todos iguais, todos diferentes

Além de mim, era uma mesa comprida rodeada de homens. Homens de várias idades, todos eles com idade para ter juízo - Há uma idade para os homens ganharem juízo? - uns mais novos que eu, outros com idade para serem meus pais. Sobre a mesa a cerveja era intervalada com o chouriço assado que molhava o pão. A lareira em plano de fundo ajudava a aquecer os ânimos e a conversa típica de quem me considera transparente nestas ocasiões - mulheres, obviamente - dava lugar a disputas. 

Às vezes penso realmente que noutra encarnação devo ter sido homem. Homem o suficiente para passar despercebida nestas circunstancias. A verdade é que a vida empurra-me sempre para estes encontros e eu às vezes nem sei muito bem onde me enfiar, mas acabo sempre por me aperceber que nem faz diferença o meu incómodo. Incómodo salvo seja. Constrangimento. 

É engraçado como numa amostra tão pequena é possível extrair homens tão reles e outros puros o suficiente até verem um rabo de saias. Desde os solteirões que se dizem apaixonados como nunca estiveram na vida por uma mulher com quem passam o tempo inteiro a trocar mensagens, mas que no final da noite estão a rezar dez pais nossos e vinte avés marias para levar a miúda mais boazona da discoteca para casa, mesmo que isso lhes valha uma valente dor de cabeça no dia a seguir, até aos comprometidos que tem ataques de amnésia quando por obra e graça do espírito santo alguém se lembra de perguntar pela Maria ou pela Joana, que ficou em casa descansadinha porque no mínimo pensa que o homem já vai no quinto sono, mas afinal prepara-se para consumar o engate que nem ele próprio sabe como conseguiu. Ah! não.. desculpem. Nestes casos a desculpa é quase sempre a cerveja a mais, tinha-me esquecido. 

Isto para não falar das apostas a feijões que homens fazem entre si que nos tornam única e simplesmente carne fresca para leões esfomeados. Ah pois é, mal tu sabes que aquele com quem te deitaste já ganhou um barril de cerveja à tua pála hãn.

Garanto-vos que às vezes preferia não ouvir nada do que oiço e viver na ignorância para sempre. Certamente que neste momento tinha alguém a meu lado todos os dias, excepto naqueles em que as outras mulheres decidirem dar uso às saias. 

Mas felizmente vivo rodeada de homens que me abrem os olhos todos os dias e os quais vou conhecendo como a palma das minhas mãos, ou até melhor. Humanos o suficiente para me fazer esquecer o lado menos bom que todos têm. Que não são santos. Longe disso. Mas que têm mágoas e que talvez isso justifique muita coisa, ainda que não deva justificar nada.  Homens que também foram traídos ou trocados, que choram de vez em quando e que também emagrecem por falta de amor. Homens que me ligam para contar o quanto gostam de alguém que está do outro lado do planeta e como mudavam tudo por ela se a vida fosse simplesmente amor. Homens que se casaram mil e uma vezes em pensamento com a burra que deitou tudo a perder para o pintarolas da moda que também chora ao pé de alguém como eu as marcas que o verdadeiro amor da sua vida lhe deixou.

Homens que não me deixam odiar a espécie, digamos assim. 

Posto isto quero acreditar que no dia em que um tipo me comprar pela certa, das duas uma, ou engana muito bem face aos protótipos que vou conhecendo ou então é mesmo o sortudo que vai ter de gramar comigo para a vida inteira.

Nem que eu tenha de comprar todas as saias do planeta. 

Patrícia Luz 
5 de Fevereiro 

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3 comentários:

  1. Adoro o tema!
    Passa no meu http://writtenbyjoana.blogspot.pt. e segue nas redes. Irei fazer o mesmo. Bjs

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  2. Sendo eu homem e trabalhando na área das tecnologias de informação é "normal" assistir a este tipo de "reuniões" durante jantares mais ou menos regados…e tal como a Patrícia diz a conversa acaba sempre no mesmo assunto.

    Mas nem sempre o leão olha para uma gazela com o objetivo de a devorar. Muitas vezes está apenas cansado de passar o dia sozinho e procura companhia para contar como foi o seu dia, quem viu passar na savana, o seu instinto diz-lhe que a gazela é a refeição, mas ele simplesmente achou a gazela diferente das outras. A gazela por sua vez ao reparar que o leão está a olhar para ela acaba por se afastar não vá o leão estar com fome e acabar por virar petisco.

    Tal como o olhar do leão, nem sempre o olhar de um homem significa que ele está à caça...

    A minha semana começa com uma viagem de comboio de Braga até Lisboa ao final do dia de domingo. Durante os próximos 5 dias o meu tempo será repartido entre as instalações do cliente e o hotel. Durante 8 horas só se respira trabalho e nem durante o almoço o tema muda ou se muda é para falar de futebol algo que francamente também não me agrada muito :)
    A maior parte das vezes acabo por jantar sozinho no hotel e por norma faço questão de não jantar a horas decentes dado que alguns colegas também estão hospedados no mesmo hotel e o tema será certamente ou trabalho ou futebol ou o tema que a Patrícia partilha neste post.

    Muitas das vezes dou por mim a ter exactamente o mesmo comportamento do leão que referi anteriormente: “o que será que faz para estar cá alojada e estar sozinha? o que será que gosta de fazer nos tempos livres? Será que está a jantar sozinha por opção tal como eu ou está desterrada aqui em Lisboa”… Mas agora pergunto, o que será que a pessoa para quem estive olhar estará a pensar? será que pensa que estou à caça? tal como os 4 marmanjos que estavam na mesa ao lado?!

    Será que foi a nossa sociedade que criou estes mitos: Homem que olha para mulher anda à procura de caça?! E mulher que se aproxima de um homem apenas para conversar é uma oferecida e esta à espera de algo mais?

    Já passei por algumas situações um pouco delicadas com colegas de trabalho ou colaboradoras do cliente em que estas pensavam que eu andava à caça mas quando lhes disse que não andava à caça quase que deixaram de falar?
    Enfim o bicho Homem quando quer complica ;)

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    1. Narciso, obrigada pelo seu feedback/testemunho :)

      Percebi exactamente o que escreveu neste comentário. Também eu sou a mulher que vai para Lisboa, e no fim do dia divide as mesas do bar com outras pessoas sobre as quais penso exactamente o que referiu, desde o que ali fazem até ao porquê de ali estarem,como eu,muitas das vezes sozinhas, no bar do hotel depois de um dia atarefado de reuniões e mais reuniões com clientes.

      Percebo que se a essência humana não fosse como é, provavelmente muitas dessas pessoas sozinhas reuniam-se e acabavam por passar um bom bocado juntas e conhecer novas pessoas que enriqueceriam a sua vida,ou até quem sabe, começassem a fazer parte dela.

      Pena que a mentalidade da nossa sociedade portuguesa ainda não nos permite esta abertura de mentes.

      Beijinhos e volte sempre, bem-vindo ao meu blog.
      Patrícia Luz

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