domingo, março 8

Dia da Mulher

Acordei cedo. Queria ter dormido pelo menos mais três horas mas o meu despertador intrínseco não me deixou. É o habito. Nós queremos desligar o ship mas ele insiste em conectar-se com o mundo. Estava chateada comigo mesma. Cansada e sem conseguir que o meu corpo percebesse realmente isso. Tinha as malas de um lado do quarto abertas a olhar para mim e o relógio do telemóvel a despertar três horas depois na minha mão, enquanto me tinha decidido a correr as redes sociais e me deixar por mais cinco minutos, de cada vez, na cama, mesmo que o sono não tenha voltado. 

Dia da mulher e eu a ressacar do sono que não tinha, com uma viagem de trezentos e cinquenta quilómetros pela frente e um avião tele-transportador no pensamento, que me viesse buscar de pijama, me fizesse as malas e no mínimo aterrasse na minha outra cama, só para não ter muito trabalho quando chegasse. Foi então que o despertador tocou pela terceira vez consecutiva e os raios de sol romperam as frexas dos cortinados mal fechados na noite anterior e me decidi finalmente fazer à vida (odeio tanto ser preguiçosa, mas é tão bom ao mesmo tempo, não é?).

Vesti o primeiro trapo que me veio à mão, lavei a cara, os dentes e tomei o pequeno almoço. Pus hozier a tocar aos altos berros e fiz as malas num ápice. Ainda deu tempo para ler a revista no terraço do quarto e ver como Lisboa é linda quando está debaixo de sol. Pudera, depois de perder dois autocarros, claro que havia tempo para tudo.

Apanhei um taxi com uma hora de antecedência do terceiro só para garantir que tinha mesmo de regressar para os braços da minha mãe e romper os laços que tanto me unem ultimamente àquela cidade e foi assim que me sentei no banco do terminal, para não variar muito, a observar e a divagar o que me passava pela frente. 

Casais de namorados despediam-se, outros reencontravam-se, enquanto organizava a papelada que tenho na mala. Mulheres de braço dado com ramos de flores, corriam para apanhar o autocarro cuja partida era anunciada na voz inconfundível do terminal. Atrasaram-se no último beijo de despedida, ou talvez quem sabe, também elas tenham preferido adiar o despertador mais cinco minutos como eu. Policias vagueavam com as mãos atrás das costas de um lado para o outro, enquanto algumas crianças tiravam o sossego aos pais que as acompanhavam. 
Foi assim que dei por mim a olhar para uma rapariga cega, a sorrir. Como se as pessoas cegas não podessem ser felizes. A sorrir muito e com um cão guia pela mão. Falava ao telefone; descrevia o lugar onde estava como se visse melhor do que eu e enquanto isso, o cão enrodilhava-se nas pernas dela para que se sentisse segura. Muito bonita e muito bem vestida. Pelo menos, o sorriso transparecia isso.

Passado pouco tempo vi-a entrar no autocarro, acompanhada do seu fiel amigo para o qual o motorista sorriu como se de uma pessoa se tratasse enquanto rasgava o bilhete que ela segurava nas mãos, sem que soubesse bem a quem o estava a entregar. 
Não há palavras para descrever como todas as pessoas pararam para observar aquele momento, como se fez silêncio só para a ouvir agradecer entre dentes enquanto o cão lhe descodificava os degraus abanando a cauda como se fosse o homem mais feliz do mundo por a ter a seu lado. 

"Coimbra". 
Talvez fosse estudante...
Não sei. Mas fez-me sentir a mulher mais inútil à face da terra. A mim e a mais umas quantas que por ali estavam. 

Exemplos de M grande. Que nos fazem sentir realmente pequenas.

Patrícia Luz
9 de Março de 2015




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1 comentário:

  1. Por vezes queixamo-nos da nossa vida sem perceber que há pessoas com "problemas" bem maiores que os nossos e que os enfrentam de sorriso no rosto :) Essa sim, é mesmo uma mulher com M grande!

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