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sábado, janeiro 4

A todos os pais que se estão a divorciar,

Quero escrever-vos.
Talvez neste momento não se lembrem daquilo que vos uniu, nem do quanto gostaram um do outro. Acredito que o amor pareça ter sido demasiado curto para ter alguma importância agora e que o vosso maior desejo seja livrarem-se rapidamente desse período menos agradável por que estão a passar. 

Infelizmente eu sei que o amor, por vezes, acaba. Defendo que todos temos o direito de poder dar uma nova oportunidade à nossa vida. E desejo a todos vós a maior sorte nessa reconquista pela felicidade. É preferível assim do que viver num engano.

Ainda não há muito tempo escrevi e incentivei todas as pessoas que não estão felizes a mudarem. Convosco eu não faria diferente. 

Acredito que devemos batalhar até compreendermos que o sumo que estamos a extrair dessa batalha não está a ser doce o suficiente para nos alegrar a alma. Depois, devemos seguir. Seguir leves, com a certeza de que demos o nosso melhor. Mesmo que isso acarrete alguma dor nos primeiros tempos de conformação, que por vezes, para alguns, pode até durar a vida inteira. 

Não é fácil acreditarem no que vos vou dizer. Estarão demasiado cegos a levar a vossa avante sem olhar para trás e é natural que existam sentimentos à flôr da pele. Uns de vocês com mágoa, outros com raiva, alguns tristes, outros felizes até por se verem livres de um ambiente tóxico. Papeladas para trás e para a frente, bens a dividir por este e por aquele, família ao barulho e até guerras desnecessárias à mistura, que nenhum de vós pensou comprar quando deram o nó. Outros mais conscientes e pacíficos. 

Aquele cenário trágico de um barco a afundar, quando não houve mais ninguém a dar à manivela para o levar a bom porto.  Aquele cenário de luz ao fundo do túnel, quando tudo terminar.

Eu sei.

Divorciem-se à vontade.
Mas só não se divorciem dos vossos filhos. Em nenhum momento.

Quero escrever-vos.

Nenhum filho merece o divórcio dos seus pais para consigo. 

Em todos os momentos vocês continuarão a ter um papel na vida dos vossos filhos. E se divorciarem-se é a única solução para a vossa vida conjugal, lembrem-se sempre que nenhum dos vossos filhos teve culpa disso. 
Nenhum dos vossos filhos deve sentir a vossa falta, porque onde quer que possam ir, devem manter-se presentes sempre. Nenhum dos vossos filhos deve carregar as vossas dores. Nenhum dos vossos filhos tem que escolher entre vocês os dois. Nenhum dos vossos filhos tem que ser comprado por um de vós com coisas. Nenhum dos vossos filhos escolheu nascer. Nenhum dos vossos filhos desejou ver a sua família desmembrada, por muito que possa ser o melhor nesse momento. Nenhum dos vossos filhos tem que vos ouvir falar mal um do outro ou ver-vos discutir.
Porque mesmo que vocês não se amem mais, os vossos filhos amam-vos. 

Amam-te a ti, que és seu pai. 
Amam-te ti, que és sua mãe. 

Quero escrever-vos, para vos lembrar que no meio do vosso turbilhão de emoções, existe um outro turbilhão de emoções a acontecer em paralelo e que muitas das vezes vos passa ao lado: o dos vossos filhos. O que os vossos filhos escondem, porque já vos vêem tão aborrecidos com tudo o que vos rodeia, que não querem ser mais um peso na vossa vida. 

Divorciem-se à vontade, mas nunca se divorciem dos vossos filhos.
Nem das emoções deles.

Nem sempre tudo está bem depois de vocês ficarem bem.

Um beijo,
Pat 



sábado, agosto 31

No parapeito da minha janela para Lisboa



Bateram as seis horas. 
O calor de mais uma tarde de Agosto doirava os céus da cidade de Lisboa. 
Embora se sentisse uma certa calma justificada pela ausência da maior parte dos citadinos habituais para o seu período de férias, a azáfama da hora de ponta fazia-se notar. 
Os aviões não davam tréguas aos céus. Minuto sim, minuto não, cruzavam-se partidas e chegadas pela janela daquele quarto de hotel localizado no décimo piso.
Lá fora, ecoava o barulho do trânsito. Pára, arranca. Pára, arranca. Carros, motas, buzinadelas. 
O barulho dos aviões contribuia para a sinfonia. 

Do lado de cá, havia calma. O sol beijava o edredon branco do quarto e a luz era sobretudo inspiradora, evidenciando algumas sombras, entre elas, as dos aviões que passavam.
Foi assim que ela se deixou cair como um peso morto sobre a cama depois de mais um dia de trabalho. Ás vezes, é necessário parar. Às vezes é necessário parar, assim mesmo, no meio do caos. 



O sol baixava. E o ar quente da rua chamava-a. 
Nem trocou de sapatos. Foi assim mesmo. 

Pelas ruas, cada pessoa na sua vida. Umas atarefadas, outras de telemóvel apoiado no ombro a colocar a conversa em dia com quem estava do lado de lá da linha telefónica, enquanto carregavam sacos de compras; muitos a correr para não perder o metro. E ela: que no seu compasso, subia a avenida em direcção ao Parque Eduardo VII, observando os raios que penetravam a folhagem das árvores, dourando-lhe a face.
Apesar do barulho, havia silêncio. 

Talvez não devê-se lá ir, mas por tantas vezes foi aquele o palco da sua tranquilidade, que não havia mais lugar nenhum na cidade a fazer jus àquilo que queria sentir naquele momento. Paz.  

Sentou-se no parapeito daquela montra para a cidade e deixou-se ficar por tempo indeterminado a observar o que a rodeava. Não sei quanto tempo foi. Porque ela também não. 




Vários idiomas eram barulho de fundo, a par e passo com a sinfonia que vos descrevera anteriormente. Fotografias sem fim iam sendo tiradas, por todas as pessoas que ali passavam: famílias inteiras, grupos de amigos, casais apaixonados, bloggers e influencers, fotografos profissionais, fotografos amadores, pessoas sós, pessoas novas, pessoas velhas, pessoas que nem tão pouco sabiam tirar fotografias. Todos que por lá passaram, por lá pararam. 

Lá em baixo, crianças rebolavam-se na relva com a inocência própria da idade. Cães corriam desalmadamente para compensar a liberdade que não tiveram claramente durante todo o dia. 

Cima abaixo, marcavam compasso várias pessoas que aproveitavam o final de tarde para pôr o treino em dia. Circulavam, ao seu lado, bicicletas e tortinetes alameda abaixo, alameda acima. 

Nos bancos laterais, namorados beijavam-se de um lado, namorados discutiam do outro. Todos acabaram o dia envoltos num abraço. Como deveria ser sempre. 

Havia quem bebesse um copo. Quem fizesse video-chamadas para o outro lado do mundo. Havia quem, como ela, estivesse simplesmente simples (sim, simplesmente simples) a aproveitar o momento. 

Verdadeiramente, não havia paz nenhuma. E foi aí que ela entendeu, que a paz parte de dentro de cada um de nós.



Os aviões não davam tréguas. Minuto sim, minuto não. Lá iam. Lá vinham. 
Em alguns momentos desejava ir dentro de um deles. Foram tantas as viagens pensadas nos últimos tempos. Nenhuma se cumpriu.

O céu apurava as cores do pôr do sol. Um degradê entre o azul e o laranja pintavam o céu nas suas costas, enquanto uma paleta de cores pastel ganhava lugar diante dos seus olhos.
A temperatura teimava em não baixar. A noite chegava.

Aos poucos, acendiam-se as luzes da cidade e, na rotunda do Marquês, as vidas de cada um iam tomando o seu rumo. Uma roda viva de vida circulava ali. 
A Avenida da Liberdade ganhava a magia que o rio por cima dela reflectia. E o castelo de São Jorge, bem... o castelo de São Jorge, por lá ficava, como sempre, a completar a moldura. 

Era tempo de agradecer. Agradecer o momento presente. O tempo sem pressas.  
Deixou de ouvir o som da cidade por instantes e, compenetrada colocou os fones nos ouvidos ao som da Raquel. Trouxe para sempre consigo uma das melhores fotografias que a vida lhe deu.  

Vieram-lhe à memória outras recordações. Mas rapidamente a música lhe lembrou o quanto as memórias boas merecem ser guardadas num lugar feliz no nosso coração.

Sorriu ao olhar o Parque Eduardo VII pela última vez.


Há lugares mágicos. Não há?
Este é dos meus favoritos. Também é dos favorito D'Ela. 

Até breve, parapeito da minha janela para Lisboa. 

Um beijo, 
Pat




domingo, abril 28

Acordei às 4 da manhã para fazer uma sessão fotográfica


Há quem lhe chame loucura, eu chamo amor. 
Nunca é tarde ou cedo para fazermos uma coisa que adoramos fazer. E foi assim que, desafiada pelo David, acordei às quatro da manhã para ir fotografar ao nascer do sol. 

Há quem lhe chame mania esta coisa de pousar para as fotos, futilidade ou até quem fale do síndrome do querer aparecer. Não sabem nada. Não quero tão pouco saber.  

Eu falo em amor. Porque adoro fotografia, adoro fotografar e ser fotografada é mesmo um escape que me deixa a cem anos luz do resto do mundo. Divirto-me imenso a fazê-lo. Não, não é um frete para ter mais uma foto para o instagram. É uma terapia. E quem me conhece, sabe. 
Não importa se fica bem ou mal, o que importa é o tempo. O tempo que passa feliz. 

Às cinco da manhã estavamos a tomar o pequeno almoço numa bomba de gasolina - onde havia pessoas que ainda não tinham acentado o seu belo corpinho na cama -, a falar sobre fotografia e à espera que se levantasse a noite cerrada. Assim que a aurora começou a aparecer, viemos a mil para este lugar e esta foi uma amostra do resultado final. 

Estava frio. Mas ninguém notou após o primeiro clique. Uma pessoa esquece-se disso. 
Não se ouvia ninguém. A não ser os pássaros a esvoaçar, as ondas do mar a quebrar e os patos, pachorrentos, no seu acordar matinal. Em pouco menos de uma hora, várias cores invadiram o céu. E os meus olhos. Os nossos. 

O mar espelhava uma imensidão de azul. Mas do lado oposto, um arco iris de cores presenteou-nos com a certeza que, acordar a esta hora não é de loucos. 
De loucos é perdê-la, enquanto se dorme. 

Obrigada David. Isto foi TOP!

















terça-feira, abril 23

Se não estás feliz, MUDA!

  


Fotografia: Sofia Ramos (instagram @sophiebranches)


Nós tentamos sempre esconder os dias menos bons, os dias em que não apetece sorrir, os dias em que a nossa vida vai mal. Ensinou-nos o tempo que o devemos fazer só para garantir que nada piora.

Escondemo-nos de quem nos quer bem, para que não nos vejam mal. Garantimos estar tudo bem, para evitar juízos de valor – muitos deles com consequências gravozas. Fugimos dos problemas na tentativa que eles fujam de nós.  E por vezes, engolimo-nos numa bolha de energias negativas que em tudo contribuem para que nada melhore.

Eu quero falar-vos disto, para vos dizer que nem sempre esse é o melhor caminho, mas para vos garantir também que nem sempre é o pior. E que, independentemente do que se passe agora, vai ficar tudo bem.

O meu nome é Patrícia e estudei Gestão. Até hoje eu não sei o que mais amo fazer, de entre uma série de coisas que me preenchem a alma nesta vida e que eu sei que sei fazer bem. É..! Há pessoas que fazem várias coisas e bem feitas. E sim, nem toda a gente nasceu com um carimbo que as destina a ser médicas, advogadas, artistas ou engenheiras. Porque elas podem ser o que elas quiserem.

E eu licenciei-me em Gestão exatamente por esse motivo: para ser o que eu quiser.

Comecei a trabalhar antes de acabar os estudos. Trabalhei em sitios que nunca imaginei. Trabalhei em mais do que um sitio em simultâneo. Mas nunca tinha feito algo que não me preenchesse a alma.

E é sobre isso que vos quero falar hoje. Não por mim, mas por vocês.

Ponderei fazê-lo durante vários meses. Hoje tenho a certeza que o posso fazer .Mais não seja para vos garantir que fica mesmo tudo bem. 

Quando somos lançados no mundo do trabalho não somos ninguém, a não ser alguém ambicioso o suficiente para nos querermos tornar na Ana que é boa profissional , no José que é um bom veterinário ou na Maria que é reconhecida como uma excelente advogada. Sem esquecer a Inês que é uma artista plástica sem igual, na Sofia que é a atriz da berra ou a Joana que ganhou prémios com a melhor fotografia do ano. 

É exatamente assim que começamos. Degrau a degrau, a subir a escada sem corrimão da vida profissional. Escorregando aqui, voando ali, saltando uns degraus a mais, caindo uns quantos para aprender a subi-los melhor, sempre com o objetivo de alcançar os nossos sonhos. Não estranhem se passarem de bestial a besta, num ápice. Mas tenham a força de nunca desistir de serem vocês mesmos.

 Não sei se fui feita para ser uma sonhadora de vários sonhos, ou se sou apenas uma pessoa sem norte. Creio ser a primeira. Mas como já me rotularam de várias formas, deixo aqui aberta a via das dúvidas.

Licenciei-me em gestão porque queria ser o que eu quisesse. O que eu ainda não tinha percebido, é que isto também dava para ser coisas que não me preenchem a alma. E foi assim que, há cerca de um ano e meio atrás, aceitei um desafio profissional que tudo tinha a ver com o que estudei, que eu quis experimentar e de que, verdade seja dita, até gostava em parte, mas que .... não me fazia feliz.

Um tiro no pé. 
Uma jovem em ascensão profissional num local onde adora trabalhar, com colegas profissionais, um ambiente positivo, que aceita um desafio que até lhe está a correr bem, especialmente aos olhos dos outros ..... mas que não a faz feliz.  

E agora? – perguntei-me eu e perguntam vocês.

E agora só tens duas opções: ou continuas infeliz ou te enches de coragem e bates com o punho na mesa e mudas o rumo.

Parece fácil! 

Parece fácil para quem não trabalha numa empresa onde adora trabalhar, com pessoas com quem gosta de trabalhar, com um ambiente de trabalho positivo e com uma profissão que tinha tudo para dar certo, mas que .... lamentavelmente não nos faz feliz! Repito. Repito para que percebam o peso de não se ser feliz. 

Logo eu, que desde que me lembro nunca me faltou vontade de ir trabalhar. 
Acontecia que ao Domingo depois de almoço, já estava em stress por a seguir ser segunda-feira. Saia do trabalho com um misto de emoções contantemente; orgulhosa do que realizei, mas de lágrimas nos olhos por não o fazer de alma e coração. Eu, que gosto de conhecer pessoas novas, ser criativa, .... estava fechada num escritório nove horas, com dois monitores replectos de números à minha frente, sem tão pouco saber se era dia ou noite lá fora. 

Não era eu. E era exatamente por isso que não era feliz.

O que eu vos quero dizer, é que em cada caminho que escolhemos, há 50% de hipóteses de não dar certo.  E não há problema nenhum nisso. 
Somos completamente livres de errar no caminho, com a única condição de nunca desistirmos daquilo em que acreditamos, sem antes tentarmos com unhas e dentes. Se der errado, uma coisa é certa: sabes que aquele caminho não voltas a percorrer. 
O que, convinhamos, é uma vitória; Mais do que saber o que queremos, é tão bom saber o que não queremos. 

Mentaliza-te apenas que, se fores sem certezas, terás de ir vestido(a) com um colete de coragem.

Coragem para, se no fim tudo der errado, te ergueres e construires um novo começo. 
Verás como os dias maus serviram para valorizares o melhor que a vida te vai dar a seguir.

Pois, como o meu pai me disse uma vez, “Se estiveres em cima de uma pedra e vires que vais cair, não te preocupes com a queda, senão cairás mesmo. Preocupa-te em encontrar uma nova pedra, para saltar e continuar o caminho”.

Eu consegui. 
Tu também consegues. 

Se não estás feliz, MUDA!

Patrícia Luz
23 de Abril 2019

domingo, abril 7

Uma vida de luxo


 




Há dias, não há muito tempo, fui assistir a uma conferência onde pessoas inspiradoras e muito talentosas falaram de vários temas, de entre os quais, um deles era "o luxo".


Durante os últimos dias tenho estado realmente a pensar o que raio é isto do luxo e quais as várias acepções que podemos ter para este tema e cheguei a uma conclusão.

Luxo é uma métrica que pode ser o que tu quiseres que seja. 

Há algum tempo atrás, quando pensava nesta palavrinha de quatro letras, vinha-me instantaneamente à cabeça muito dinheiro. Muito dinheiro gasto em coisas muito caras. Coisas muito caras que custam muito dinheiro. Hotéis, jóias, carros, casas, roupas, acessórios, ... enfim, uma panóplia de coisas que só no nosso imaginário poderão um dia vir a ser nossas, no caso de pertencermos aquela percentagem de pessoas no mundo que, têm uma vida singela e, até então, ainda não tiveram a sorte de acertar nos números mágicos daquela simples, mas complexa, cautela do euromilhões.

Hoje não. 

Aprendi que luxo pode ser apenas o que me faz feliz. O que me surpreende. Aquilo que me deixa com o coração calmo, os pés assentes firmemente na terra, o que faz a minha cabeça viajar sem sair do sitio. 

Luxo não é nada do que imaginei há uns tempos atrás.

Porque luxo, para mim, é caminhar descalça por aí. Sentir o alcatrão quente nos pés, ou a areia nos dias de verão. Vir salgada da praia e tomar um banho de mangueira, com aquela água que o sol aqueceu. Comer um sargo assado no mesmo braseiro que assou pimentos verdes e, acompanhar tudo isso, com tomate rosa da horta mais próxima. 

Luxo é acordar todos os dias com saúde: respirar fundo para garantir que estamos vivos, todas as manhãs. 

É ver o nascer do sol, quando todo o mundo ainda dorme. Poder, por isso, receber a calma da cidade que nesse momento desperta, encantada pelo palrear dos pássaros. Luxo é poder ver. É ter olhos para poder contemplar o céu colorido num final de tarde abrasador. É ter pele, para poder sentir a brisa fresca das noites de primavera ou aquela lufada de ar quente nos finais de tarde de verão. Luxo é sair do trabalho e poder correr num contra-tempo até à praia mais próxima, para ouvir o barulho do mar. Poder vê-lo a espelhar o céu, ou a lutar contra as falésias em dias de tempestade. É despir as roupas todas que não nos fazem falta e mergulhar nele. Observar os peixes na sua vida delicada. E voltar a terra com uma serenidade absoluta. 

Luxo é entrar numa taberna sem luxo nenhum, e além do sorriso do lado de lá do balcão, ter os sabores de uma vida numa só mesa. É ser tratado pelo nome próprio, no dia do regresso ao mesmo local. 

É ter pernas para correr. Correr atrás dos sonhos.   

É muito mais do que isso. 
É viver numa família unida e feliz. É ter um pai, uma mãe e um avô para abraçar quando o mundo à nossa volta desaba.
Hoje em dia, é ter um amigo. Aquele que em momento algum nos irá falhar; aquele, 
com quem temos a certeza que podemos fechar os olhos e cair em queda livre, que ele estará lá, como uma rede trapézio para nos amparar. 

Luxo é poder sentir o cheiro da natureza. A terra molhada. A chuva a cair. 
Ouvir a chuva bater nas vidraças, enquanto, do lado de cá, podemos sentir o quentinho de um abrigo, que tanta gente não tem. Debaixo dos cobertores de uma cama, que para tantos não existe. 
Abraçar com as mãos frias, uma caneca de chá quente. 

Luxo é ter uma estante de livros a olhar para nós.
Termos tido a sorte de ter aprendido a ler e usufruirmos da benção de poder absorver o que alguém um dia escreveu. 
É existir a música perfeita para cada ocasião. É ela ter o poder de nos curar.  

É ter paz de espírito, num mundo excessivamente veloz, cada vez mais deprimido e solitário.
Garantir um coração sereno, uma vida saudável, uma mente sã, uma alma limpa. 

Tantas vezes achei que luxo era coisa de pessoas ricas.

Hoje entendo, que rica sou eu, pois nunca precisarei de jóias, carros, hotéis, ou o que seja, para me sentir grata por tudo o que de melhor me rodeia.

Esperamos tanto por coisas que talvez nem cheguem e esquecemo-nos de parar, olhar ao redor, abrir os braços e apertar junto ao coração tudo aquilo que o universo nos ofereceu, de mão beijada. 

Luxo? Luxo é ser grato. 
Luxo é ser feliz com as coisas grátis da vida.  

Patrícia Luz
7 de Abril 2019








quarta-feira, setembro 12

Primeiro dia de Aulas | Quem se lembra?

Tinha cinco anos, palmo e meio de altura. Menos de metade dos dentes e o cabelo cortado à menino, porque, diz o meu pai, fui eu que quis assim por solidariedade com o meu irmão, que não gostava lá muito de cortar o cabelo nas férias de verão. Não me lembro ao certo disto, mas lembro-me de ser feia como o raio. 

Se me perguntarem acerca dos últimos dias de férias antes de se dar inicio a jornada de estudante até ao que me tornei hoje, talvez  eu me lembre melhor e vos possa dizer como era divertido fazer asneiras no pátio da casa dos nossos avós. Porque depois disso, tudo foi uma correria entre férias e não-férias. 

Começou desde então a existir uma cronologia na nossa existência.  

 1º ano, 2º ano, turma do 5ºC, 10ºD. Os amigos daquele ano. Os do ano seguinte. Quando andava na escola de Pataias, quando afinal a da Penha é que era. Mas quem se pode esquecer da "Nova" ou dos tempos de Liceu? E a faculdade?

Antes dos cinco anos como se contabilizava o tempo? Pelas festinhas de aniversário na casa uns dos outros? Só pode.  

Com cinco anos eu entrei para a escola primária de Pataias e lembro-me como se fosse hoje, apesar de não recordar grandes pormenores. Tirando a Carolina, era talvez a mais nova da turma, como sempre fui, até à conclusão dos meus estudos. Um bebé atirado à vida. 

Como referi, não me lembro de muita coisa, mas lembro-me que não chorei. A minha primeira professora chamava-se Lurdes e era muito gordinha, tinha os cabelos curtos encaracolados e era muito querida. Quão lhe posso agradecer por hoje saber ler e escrever estas letrinhas que, juntas, formam palavras com algum significado. 

Lembro-me muito bem do Duarte. Com aquele ar reguila de pião de madeira que o pai lhe fizera debaixo do braço. Da Melissa que era a mais bonita da escola e da Jéssica, a minha melhor amiga desde o berço, quase. Da Vilma, a nazarena a quem roubava bolicãos e filipinos no ATL, do João a quem dava beijinhos na boca às escondidas nas traseiras da escola, do Flávio que era o vizinho da minha rua, da Vera que era a melhor aluna, do Hugo porque faziamos o mesmo caminho para a escola, da Carina, da Andreia, da Susana, do Nuno.... enfim! Acho que é impossível esquecer os nossos parceiros do abecedário e contagem crescente até cem, certo? 

Já nos conheciamos, a maioria, das aventuras do infantário. Das corridas de pneus ou dos carnavais vestidos de batmans e cinderelas,por isso, o primeiro dia de aulas não foi um choque. 

Lembro-me de estar entusiasmada por finalmente ir ter canetas e lápis novos. E de quando foi o momento de escolher o lugar na sala de aula, com os pais todos de pé ao fundo mais alarmados com a situação do que nós próprios! Lembro-me da mãe da Melissa de lágrima no canto do olho (ehehe). 

Lembro-me do abecedário colado na parede, com imagens de objectos a exemplificar cada letrinha. 
A - Abelha,
B - Boneco,
C - Cão,
D- Dado, 
E - Égua, 
F - Foca 

.... quem não? 

Lembro-me de acreditar que ia finalmente poder ensinar a minha avó a escrever bem o seu nome e a ler. 

Tantos sonhos. 
Tanta vida começou ali, naquele dia de Setembro de 1997. 

Quem mais se lembra do seu primeiro dia de aulas?  

Patrícia Luz
11 de Setembro de 2018



segunda-feira, setembro 10

A Educação Comodista

Hoje volto às palavras. 


Alguns vão criticar-me depois de ler o que vou escrever, outros vão estalar o canto da boca e bradar aos céus "deixa chegar a tua vez, que logo vemos como é". Mas neste momento é a minha opinião e porque sou livre de a dar num espaço que ainda é meu, eu vou fazê-lo. No dia em que mudar de opinião também sou Mulher de me ajoelhar e admiti-lo. Agora não!

 Sou aquela pessoa que gosta de passear e ocupar o meu tempo sozinha. Faço mesmo muitas coisas sozinha. Vou à praia numa boa, faço snorkeling de vez em quando, vou ao shopping e até prefiro assim, vou áquele restaurante que quero mesmo experimentar e, que, por sinal não houve ninguém com a mesma vontade que eu naquele dia (ou mesmo, porque me aborrece ir com "alguém": uma pessoa que não é aquela que eu quero que vá efectivamente comigo àquele lugar - não sei se já vos aconteceu ou se sou a única pessoa estranha neste mundo a gostar de partilhar sitios específicos com pessoas específicas), enfim, já cheguei a ir sair à noite sozinha até, porque verdade seja dita nunca estamos sós. E na maior parte das vezes até se torna divertido. 

É essencialmente por isso acontecer que me tornei uma pessoa bastante observadora de tudo o que está à minha volta. 

É facto, que quando estamos a jantar com alguém, por exemplo, temos algo suficientemente interessante para nos ocupar as atenções: com quem falar, para quem olhar, em quem tocar, sobre o que rir. Mas quando estamos a sós, tudo é exterior à bolha da nossa existência naquele momento, naquele local, àquela hora... e por isso mesmo, a não ser que sejamos um ser macambúzio e desinteressado por natureza, tudo o resto, passa a ser o nosso foco. 

Tenho, por isso, reparado na educação comodista dos dias de hoje e quero falar dela. Primeiro porque me entristece na medida em que estamos a formar o futuro e, depois, porque assusta-me ter que vir a viver assim: com mesas compostas de famílias que se reunem em silêncio por trás do ecrã dos telemóveis. Não há gritos! Não há chatices! Não há um diálogo! Os irmãos já não roubam batatas fritas uns aos outros, porque nem despegam do telefone para olhar para o prato do lado!?! Como assim? Ninguém sabe nada de ninguém?! Ninguém está verdadeiramente ali. Ninguém está a valorizar aquele momento fantástico que é o de terem todos os seus familiares sentados à mesma mesa? 

Crianças com três anos de idade, ou menos, comem a olhar para um tablet. Porquê?
«Ah porque se não for assim ele não come!» - Como assim, não come? Não se comia antigamente, nesta vida? 

«Porque é a forma de o ter sossegado!» - As crianças não nasceram para serem peluches de estimação! 

«Porque se não for assim, não conseguimos jantar sossegados com os nossos amigos.» - Então mas... quando se deitaram naquele dia de amor louco, não se lembraram que os jantares com os amigos nunca mais seriam os mesmos? 

Antigamente não era assim. Porque é que agora é? 

Logicamente porque a civilização evolui (nem sempre para um pólo extremamente positivo, convenhamos) e temos que nos adaptar. Ok! Então mas e.. temos mesmo que nos adaptar a algo que destrói a educação das normas de conduta em sociedade? A educação do bê à bá da vida? 

Na minha opinião não. 

Na minha opinião estamos a assistir a uma educação comodista de pais que não se querem dar ao trabalho. Que não se querem chatear. Que estão nem aí para se chatear. Que querem ter filhos e ter paz e sossego. Onde é que está a lógica?

Continuamos a criar pequenos monstrinhos de laboratório que nunca saberão o gosto amargo de um NÃO! Que nunca conhecerão o significado de um olhar durão - porque nem tão pouco tiram os olhos dos ecrãs para olhar para os pais. Que em poucos anos, estarão - como alguns até já fazem - a dar ordens aos pais. A fazer exigências. 

Há excepções? Claro que há. Há pais que regram as coisas! E não limitam o avançar da civilização aos seus filhos. Mas nada como ter conta-peso-e-medida. Porque até nisso é possivel a educação ter um papel activo. E a esses eu tiro o chapéu! 

Mas... e o resto? 

Sento-me nessas mesas muitas vezes sozinha a observar estas familias modernas, tão grandes e tão sós, tão avançadas tecnologicamente mas tão vazias do que realmente importa e penso o quão bom é viver na minha bolha. Mas quão triste é querer ter a minha família sentada à minha mesa e não ter. 

Há vinte cinco anos atrás, formar Homens para o bê à bá da vida era tarefa honrosa, para aqueles que a faziam bem. Hoje, esperemos que o google ensine.  

Beijinhos,  
Pat
10 de Setembro 2019




sábado, agosto 11

Sobre a Amizade

Eu não sou a melhor amiga do mundo. Aliás, eu não sou a amizade mais assídua do mundo, corrijo. Quero relembrar isto a todos os meus amigos do coração, porque de certeza que vão concordar comigo. 
Eu vou estar meses sem dar sinais de vida e provavelmente só irão saber algo acerca de mim depois de já ter dado uma volta de trezentos e sessenta graus e feito o pino vinte vezes sozinha, sem eu própria saber como. 
Eu não vou mandar mensagens dia sim, dia não, a saber se a vida lhes corre a preceito, como foi o dia de trabalho, como está a relação amorosa do ano ou se o piriquito que compraram a semana passada ainda é vivo. 

Não. 

Eu não sou o tipo de amiga de conveniência com quem só se sai à noite. Ou só se vai ao shopping. Ou só se liga num final de tarde de Domingo, porque nenhum dos mil duzentos e trinta pseudos-amigos de alguém não estiveram disponíveis naquele momento. Não sou, nem quero ser, a amiga que interessa ter por perto, só porque... interessa. 

Eu sou a amiga que estará lá independentemente do que quer que seja, à distância de um simples "anda cá". 

Eu tenho uns cinco ou seis amigos que me conhecem como a palma das suas mãos. E que já não me cobram ausências porque sabem que eu estarei sempre lá quando for preciso. Sabem que eu estarei lá, antes de me avisarem que é preciso. Eu estarei lá, quando mais nenhum dos seus outros amigos estiver. E estarei lá a ferro e fogo. A lutar por si como se fosse por mim. Seja por que razão for. Seja como tiver que ser. À distância de um simples "anda cá". 

Porque os meus amigos, ou são ou não. 
Não fui feita para meias amizades. Para quase amizades. Para pseudo-amizades. Para amizades da TRETA. Porque isso são tudo... menos amizade. 
Tanto não fui, que comigo ou é ou não é. Não há espaço para meios-termos. Porque para ter meios-amigos, prefiro não ter. Prefiro correr o mundo sozinha. Prefiro dar uma volta de trezentos e sessenta graus as vezes que forem necessárias para aprender pela minha própria cabeça a errar e a resolver os meus problemas, a divertir-me e a lidar com a tristeza, a sofrer ou a deixar de o fazer. Prefiro falar com as paredes e ouvir o meu próprio eco, a ter amigos de merda, passo a expressão.

A amizade é um conceito dúbio. Cada um tem a sua noção, os princípios por que a regem para sí mesmos, aquilo que mais valorizam em cada uma delas. Normal! Somos humanos. Somos diferentes.

 E aquilo que eu mais valorizo nas minhas, são coisas simples o suficiente para serem essenciais: Lealdade, honestidade e confiança. Simples o suficiente para ter apenas cinco ou seis amigos. Complicado o suficiente para não ter mais do que cinco ou seis amigos.

Não espero nada menos do que aquilo que dou aos outros: Lealdade, honestidade e confiança. Mas isto, eu espero mesmo, com unhas e dentes.

Ser amigo tem muito que se lhe diga. Aprendi que nesta vida temos dois de verdade, o nosso pai e a nossa mãe. E que também eles, estejam onde estiverem, estão sempre à distância de um "anda cá". E depois temos os outros, que à medida que o tempo passa e cujas provas vão sendo dadas, vão crescendo neste barómetro de sentimentos que nos faz gostar mais, ou menos, de alguém. Confiar mais ou menos em alguém.

É quase como um duelo bilateral. O esticar de um elástico com todas as forças do mundo, em que o primeiro a largar, a falhar, a errar, vai magoar o outro.

O objectivo das amizades não é magoar ninguém. Não é esticar o elástico com a finalidade de o largar a seguir. Acho eu, na minha reles e singela opinião. E é por isso que não se fazem amizades de um dia para o outro.

O objectivo das amizades não é dar uma palmadinha nas costas e dizer o que os outros querem ouvir. Não é ser a almofadinha de encosto quando não há mais ninguém. Ser amigo é muito mais do que isso. É ser frontal, é dizer a verdade, é dar opinião tal e qual ela existe dentro de nós. É falar quando algo não está bem. É não falar quando tudo está mal e substituir as palavras pelo maior e mais apertado abraço do mundo. É estar lá na saúde e na doença. É enaltecer as vitórias dos outros. É dar-lhes as mãos cruzadas para que apoiem o pé e saltem mais alto! É esquecer coisas da treta. É não ser orgulhoso. É saber agradecer e, mais do que isso, pedir desculpas. É ser-se fiel - assim como os cães são com donos, estão a ver? -, é ser-se honesto.... mas mais importante que isso é ser-se confidente. Eu creio até que o alimento e sustento de uma amizade é o poder da confiança.

E encontrar alguém confidente, é difícil nos dias que correm. Quase impossível.

Os meus amigos do coração estão sempre comigo, mesmo que eu não esteja com eles. E no dia em que precisarmos de ir à luta juntos, eu sei que eles sabem que estarei vestida dos pés à cabeça por eles e pronta para a guerra. Porque sou tudo aquilo que eu desejo que os meus amigos sejam para mim também.

Eles sabem descobrir o olhar triste por trás do meu sorriso, a minha ansiedade por trás da minha confiança, a minha angústia por trás da pessoa forte em que me tornei. Simplesmente porque me amam tal e qual como sabem que os amo a eles, como eu sou, como eu sou para eles.

A amizade é o amor mais bonito que existe no mundo. Múltipliquem só as de verdade.

Patrícia Luz
11-08-2018


segunda-feira, abril 9

Quer uma foto?

Eram umas oito da noite e começava a haver um ratinho no estômago a pedir-lhe comida.
A hora mudou e felizmente já é dia. 
Dores de cabeça depois de uma segunda-feira preenchida o suficiente para se ter esquecido de pôr algo a descongelar para o jantar. 
Esta coisa de uma pessoa se tornar adulta não tem piada nenhuma.
Se ninguém se lembrar por ti da roupa na corda, ela fica lá a ressequir ao sol... e com sorte comes ovos mexidos se pelo menos isso tiveres tido o cuidado de garantir no frigorífico. 

Ninguém sabe a que horas saíste, ninguém te garante o acordar se o despertador falhar, muito menos o jantar se te tiveres esquecido que jantar é importante no meio de tantas coisas mais importantes que tens para fazer. 

Ninguém merece crescer. Ninguém merece não ter ninguém que se preocupe. 

Trocou os saltos altos por umas botas rasas e confortáveis, o blazer por um casaco casual e lá foi jantar fora e a pé. Só para ter a certeza que os pés ainda tem coragem de pisar o chão depois de tantas horas sentada em frente a um ecrã que muito diz, mas nada fala.

Anoitecia. O vento frio do final de tarde fazia-lhe esvoaçar os cabelos enquanto descia a rua num andar firme e determinado. Por isso, apertava o casaco com as mão junto ao pescoço para não se constipar. Abril já não é o que era. E ela também nunca mais será. 

Malinha a tiracol e uma massa de frango na cabeça. Nada mais a preocupava. 

Sozinha. 

Decidida, fez o pedido; "Uma massa de frango pff, se possível com pouco azeite, Obrigada". 
Já lá vai o tempo em que nada lhe fazia mal. 

Depois de equipar o tabuleiro com os apetrechos básicos de jantar e efectuar o pagamento, sentou-se numa mesa ao fundo da sala a aguardar a vez da senha do seu pedido. Vários números iam sendo chamados, várias vozes iam sendo ouvidas em tom de fundo. Famílias, trabalhadores vindos directamente dos seus empregos, alguns idosos, algumas crianças a correr pela sala e ela, que se esqueceu simplesmente de pôr algo a descongelar. 

Assim que se senta, há uma sensação estranha de ser observada de alto a baixo. Desvalorizou. Pegou no telemóvel e fingiu que nada era com ela. 
Entretanto a visão periférica continua a manter a sensação de olhos postos no que está a fazer. Levanta a cabeça com certeza e olha em redor quando se depara com quatro indivíduos do sexo masculino - temos que lhes chamar assim, porque não há outro nome possível - especados a olhar para ela enquanto comem sabe-se lá o quê. 

Olhos postos no telemóvel novamente só para garantir que não havia rede naquele lugar e na expectativa de demonstrar que não era nada com ela, aqueles oito olhos mantém-se postos no que está a fazer.

Calma lá! Mas será que de uma banal rapariga que se esqueceu de descongelar algo para o jantar, passou a mobília de museu? 

Ao fundo gritam: "Senha 62 - Massa de Frango!"

Levanta-se. E os oito olhos percorrem todo o movimento. 

Não resistiu e em tom firme, perguntou:
" - Desculpem, os senhores por acaso querem uma foto? Sinceramente..." 

Foi buscar o pedido e sentou-se novamente no seu lugar. 

E cá vos digo, quem virou museu foi o prato onde comiam. Certamente nunca apreciaram tão bem a sua comida como hoje, sem coragem de voltar a colocar os olhos no que quer que fosse dela. 

Ser mulher não é ser objecto de apreciação. Dêem-se ao luxo de ser civilizados "indivíduos do sexo masculino a quem não sei que outro nome dar". Tornem-se HOMENS e honrem a vossa espécie.

Tirando isso a massa estava óptima! Diz ela.

Votos de um bom final de segunda-feira, 

Patrícia Luz 
10 de Abril 2017


segunda-feira, fevereiro 19

Escolha Múltipla




A escolha múltipla matou o amor. 
Hoje eu quero escrever sobre a facilidade com que descartamos pessoas da nossa vida. 

“O meu sonho é encontrar uma mulher séria com quem construir uma família com pilares e valores sólidos”, dizia um amigo meu esta semana. “Mas acho que já não há pessoas assim, com quem possamos construir um amor para a vida toda.”
 Não é a primeira vez que ouço esta lamentação e não será a última com certeza. Eu própria me poderia martirizar a pensar o mesmo. 

Pois é meus amigos: o que não faltam são mulheres sérias aos vossos olhos. E é aí que começa o problema. E quem diz mulheres, diz homens, porque não se pense que somos diferentes. 

Os amores nos dias de hoje são descartáveis e é exatamente por isso que nunca o chegam a ser: Amor.
Já ninguém tem paciência para encher o saco, engolir sapos e abrir o pipo da panela de pressão para deixar sair o vapor maléfico de uma relação. 

Porque nos havemos de  dar ao trabalho de moldar uma pessoa de quem nós até gostamos se, sem sair do sofá, podemos abrir um livro de caras e começar a escolher alguém novo de quem gostar e que, - durante uns tempos -, não nos dará chatices nenhumas?

Já ninguém se quer dar ao trabalho. E é exatamente aqui que o amor morre. 
Aquilo que se passa é que somos pessoas apaixonadas em vez de pessoas amadas, porque quando tudo começa a dar para o torto, começamos simplesmente a mudar o chip... a descartar a pessoa que temos ao nosso lado. E assim começam novas paixões. E assim morre o amor. 

Eu quero falar disto porque não tenho paciência para paixões. 

E então lembrei-me de recordar que o amor para a vida toda existe. Mas só existe para pessoas que se querem dar ao trabalho. 

Ao trabalho de amar. Ao trabalho de ter paciência. Ao trabalho de dizer obrigado; pedir desculpa e ouvir. Ouvir muito. Ao trabalho de se colocar no lugar do outro, de mostrar ao mundo que a vida só faz sentido ao lado daquela pessoa. Que os ciúmes (saudáveis) são apenas a prova do amor que a outra pessoa sente por nós. Ao trabalho de dizer  “amo-te” quando a conversa azedar de tal forma que a única vontade é esbofetear (em sentido figurado) a outra pessoa. Abraçá-la até, com todas as forças do universo, nesse exato momento. É engolir sapos em determinadas circunstâncias, mas falar sobre eles sempre! - se não os quiserem ter que engolir muitas vezes. 

Ao trabalho de dividir tarefas, de compreender que não és o único a estar cansado depois de um dia de trabalho e que do outro lado também podem ter existido problemas no decorrer do dia que precisem de ser falados. 

Ao trabalho de não se ser egocêntrico. De ser educado em todas as circunstâncias. 
De admitir erros. De explicar as razões dos mesmos. De ser flexível. De não impor opiniões. De ouvir para compreender e não para responder.

De perdoar,
(...) 
Enfim, ficaria aqui dias a inúmerar a trabalheira de um amor para a vida toda. E talvez se compreendesse porque não existem tantos assim por aí nos dias que correm.

As paixões não dão trabalho nenhum. Afinal de contas é como ir a um restaurante e não passar da entrada. Para quem tem fome, tudo sabe bem. Ninguém quer estragar o floreado inicial. Mas depois é que são elas. 

Os amores morrem devido à lei da oferta e da procura. 
Quem muito procura terá que se contentar com a entrada; quem trabalha para conquistar o prato principal ... desfruta da sobremesa. 

As mulheres sérias existem.
Os homens sérios também. 

Basta que exista uma única coisa: AMOR.

Sejam felizes,

Pat
18.02.2018



sábado, fevereiro 3

Adiar o Amor.



Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro porque exatamente o disse, e com sinceridade, hoje repito: é uma maldição, mas uma madição que salva. Clarisse Linspector

Nós podemos adiar muitas coisas. Podemos ir depois às compras, podemos ir depois ao ginásio, podemos arrumar depois o quarto, comer mais daqui a pouco ou ler um livro mais tarde... o que não podemos é adiar o amor. Aquele sentimento que nos une áqueles de quem gostamos com todas as forças do universo, com toda a alma do mundo e com a fé de que se for para o perdermos algum dia, é para nos perdermos juntos.

Eu quero escrever-vos sobre isto alguns meses depois de me guardar em folhas soltas por aí. Depois de ter rasgado algumas para não me lembrar delas e relido outras para me salvaguardar da minha verdade interior. 

Não podemos adiar o amor. 

Não podemos adiar o amor para o momento em que o perdemos ou estamos em vias disso. Simplesmente por uma razão: porque os amores que se guardam para a urgência de um dia se perderem, não são amor. Podem ser muitas outras coisas parecidas, mas não amor. Porque quem ama com todas as forças do universo não imagina sequer esse momento: evita-o no desespero de algum dia o vir a viver. 

A unica forma de evitar um momento de perda: é amar. Hoje, amanhã, depois, sempre, pela manhã, pela tarde, pela noite; de férias, a trabalhar, de folga. A sair com os amigos, a jantar com os pais, a abraçar os filhos, a ouvir os amigos.
E a unica forma de amar é evitando um momento de perda.

Nós podemos adiar muita coisa. Tudo, menos o amor. 
Não há desculpas possíveis. 

Não é quando já não há nada a fazer que vamos encontrar soluções. Não é quando já se magoou que se vai querer arrancar a dor a ferros do coração de alguém, não é quando já se fez errado, que se pede para esquecer. Não é quando o sentimento corrói que vamos construir alicerces de aço fundido sobre ele.
Porque somos Humanos. E os humanos caressem de um grande problema: São Humanos. 

E têm coração. 
E quando o coração acelera não há amnésia selectiva que nos valhe.

E cerebro. 
E quando o cerebro pensa não há coração que acelere. 

Isto é sobre o que se sente dentro de nós. 
Se for para amar: Ame só. Ame só quem o faz esquecer que tem cerebro, e coração, e corpo. 
Nunca saberá o que é adiar o amor. Jamais perderá um.


Patrícia Luz 
3 de Fevereiro 2018

 


domingo, maio 14

What a day! | 13 de Maio de 2017


Depois de dias a fio a tentar escolher a oportunidade ideal para relançar o meu blog, dou por mim aqui sentada porque sim, porque tem mesmo que ser, porque é impossível deixar passar este marco na minha vida, e na vida daqueles que me rodeiam, assim... em branco. 

Ontem adormeci à luz das velas. 
A imagem de Fátima transformada num mar de gente iluminada pelas suas próprias mãos, certamente não me sairá tão cedo da memória. 
Ainda que longe, as preces e os cânticos vieram ecoar nas paredes da nossa sala. 
Sou católica, porque não pude escolher. Talvez o fosse na mesma, de qualquer das formas.
Não vou à missa. Não rezo todos os dias. Mas tenho a certeza que sou protegida pela fé que nutro por algo que não sei ao certo o quê. E agradeço todos os dias por isso.
Em voz alta. Para que, se for Deus que me ouve, me oiça com atenção. 

A religião. 
Que coisa é esta que permite que multidões se respeitem? Que coisa é esta que permite o silêncio entre milhares de pessoas num só lugar?
O silêncio.
Eu já só falo no poder do silêncio, porque a magia, essa, não se explica.  

Hoje, sua santidade, Papa Francisco, esteve em Portugal. 
Obrigada Mundo por respeitares a paz deste momento. 

Por outro lado, é impossível não vir aqui gritar aos quatro cantos do mundo que sou Portuguesa. Que o orgulho de o ser transborda por todas as partes do meu corpo! É impossível não vir aqui dizer a toda a gente que aquele pontinho do globo que raramente é chamado pelo nome próprio e que é visto tantas vezes como a "sala de estar" do país vizinho, afinal... Oh! afinal tem vida própria! Voz própria! Talento próprio! Caramba!!! 

A música. Desta vez: A música. 
A música e sua capacidade de comunicar, de atravessar fronteiras, idiomas, de colocar os olhos brilhantes naqueles que não a entendem, mas que se arrepiam ao ouvi-la, ao senti-la, mesmo sem saber ao certo porquê, sem perceberem ao certo o que diz.
O mais alto esplendor da Língua Portuguesa, da verdadeira Língua Portuguesa, proclamada por aí. A poesia, a nossa verdadeira poesia. O amor, sempre o amor. 

Desta vez, na nossa sala, intervalado pelos festejos futebolísticos também eles ouvidos na rua onde eu moro, ecoa o nome do nosso país na voz do Salvador Sobral.

Portugal,
Portugal, 
Portugal (...) 

Repete-se na voz representante de cada um dos países presentes, e pé ante pé, subimos posições no ranking ...

Portugal,
PORTUGAL torna-se vencedor da música orgânica, da musica vinda das entranhas, da música sem fogo de vista, da música, só.

Obrigada, obrigada Salvador da Pátria. Somos vencedores do Festival Eurovisão da Canção 2017.

Ontem adormeci à luz das velas.
Amanhã, a história continua ... mais rica.

Bem-vindos ao meu blog. Hoje é sempre um bom dia para recomeçar.



13 de Maio de 2017






domingo, fevereiro 5

| Your soul is the whole world



| Your soul is the whole world. 

Contento-me com coisas simples. O amor alimenta-me e o desamor corrói-me. 
Adormeço com mil sonhos todos os dias e acordo sempre que os pesadelos me dizem que não vou conseguir concretizá-los. Choro quando estou nervosa, mais ainda quando vejo injustiça ou ingratidão diante dos meus olhos. Choro quando estou feliz também. Não sou a melhor pessoa do mundo, mas tento ser a melhor versão de mim em cada dia que passa. Caio. Caio na maldade de acreditar que há pessoas boas. Ergo-me sempre, só para continuar a entregar o melhor de mim a cada uma delas. 
Não tenho segredos. As bochechas que coram não me deixam mentir. 
Gosto do mar. Em cada dia triste é ele que me limpa a alma. E em cada dia feliz é ele que a transforma em verão. Gosto do silêncio barulhento das ondas a latejar na minha cabeça sem norte. 
Sou criativa. Especialmente a fugir dos buracos em que a vida tem tendência para me enfiar. 
Acredito. Acredito que em cada dia, há mil e uma vidas a chamar por nós. E que nada, nada, acontece por acaso.
Não sou a melhor amiga do mundo, na medida em que não digo o que os outros querem ouvir. Não tenho perfil de lambe botas e chateiam-me os rebanhos em busca das luzes da ribalta. Mas se me pedirem um ombro, tenho dois para dar.  
Gosto de dar. Dou demais às vezes. O que não tenho, até. 
A minha vida são quatro paredes de ar, onde vive muito pouca gente. Mas gente muito boa. 
Sou livre. 

Um serão bem passado define-se por uma mesa rodeada de sorrisos, ou o meu albúm favorito a ecoar nas paredes do meu quarto em lusco-fusco enquanto chove lá fora. 
Sou de extremos. Gosto da melancolia das noites e da exaustão de não ter mais horas para viver os dias. Sou feliz e triste. Carente e insegura, certa de tudo o que tenho de bom. 

Tenho mil razões para não gostar da vida. E todos os dias invento outras mil para a adorar. Sou a prova de que quem vê caras não vê corações. 

Agradeço. Agradeço todos os dias a Deus as pessoas luz que coloca na minha vida em cada momento, mesmo sem que elas cheguem a saber que o são. 

Energias positivas atraem energias positivas. 

Your soul is the whole world.

Patrícia Luz
5 de Fevereiro 2017