sábado, novembro 30

Odeio-te, mas é mentira.


Foto: Filipa Marques (www.behance.net/philipa-marques)

(Três simples palavras que te vão por a tremer, de medo ou de felicidade)

Antes de me fechar no meu pequeno mundo, envolvida nas minhas leituras habituais de fim de noite acompanhada de uma música qualquer que me faça viajar sem sair do acolchoado tapete do meu quarto, local onde gosto de abraçar as palavras dos outros, a meia luz, com aquele aroma a baunilha no ar, decidi escrever-te. Podia não o fazer. Que no fundo era o que devia ter feito: nem sequer ter começado; mas agora que aqui estou, cá vai disto.

Gosto de ti.

Parece estúpido dizê-lo, quanto mais senti-lo. Também pensei o mesmo quando o murmurei para mim mesma. Como pode alguém em tão curto espaço de tempo arrebatar o coração de alguém desta forma? Preferia não saber sentir, já que explicar é quase impossível. É caso para dizer que.. acontece! A empatia entre as pessoas não se escolhe. Não existe um relógio por aí à deriva a decretar a hora certa para gostar de alguém. Andamos aí aos encontrões uns com outros e olha.. ás vezes gostamos. Acontece gostarmos, como poderíamos odiar. Afinal de contas a relação entre as pessoas é assim, um enigma: nunca ninguém sabe se resultará ou não; se durará dois dias ou a vida inteira. E é por isso que se eu antes acreditava que o fim de uma relação merecia o seu devido luto, hoje acredito que para cada luto haverá sempre uma primavera à nossa espera. E às vezes ainda o Verão vai a meio, mas tarde ou cedo, ela chega.

Desde o primeiro dia que gosto de ti. E desde o primeiro dia que não quero gostar de ti. Controverso, mas sincero. Os amores da minha vida, que o serão para sempre - e aqui a palavra sempre ninguém pode julgar, porque se há coisa que não volta para trás é o tempo passado-, fizeram com que me protegesse de tudo o que gosto. Porque normalmente são essas coisas que nos provocam danos maiores, que não nos matam mas moem, dia após dia, muitos dias, às vezes. E quem melhor que tu para entender isso, digo eu.

Já ninguém quer carregar peso tão grande, como aquele que acarretam tão simples três palavras. E eu não to pedia. Eu entendo-te melhor que ninguém, penso eu. Mas a verdade é que já ninguém quer gostar de ninguém sem ter a certeza que vai ser correspondido, já ninguém quer saber se alguém gosta de si pelo simples facto de correr o risco de não gostar assim tanto dessa pessoa como, achamos, que ela gosta de nós. Por não ser a altura certa (há altura certa para gostar de alguém?).
Saber que alguém gosta de nós pode tornar-se numa "bomba-relógio"; pois para correr o risco de termos que ter uma conversa esclarecedora quanto aos sentimentos, mais vale estar quieto. Desistir de tudo. Responder com um silêncio absurdo, desolador. Fazer-se desentendido(a). Ou na pior das hipóteses, deixar de gostar um bocado dessa pessoa com medo que o sentimento seja mútuo. Sim, porque isto acontece mesmo. Nunca ninguém gostou de melo-dramatismos. As pessoas resolvem-se assim no século vinte e um. E aquilo que podia resultar num "eu também" ou "eu também, mas não da mesma forma" ou apenas num "de que forma?", morre muitas vezes no silêncio do medo de saber a verdade sobre o que três simples palavras querem dizer; com medo de consequências maiores, com medo de ter de pontapear um "eu não gosto de ti assim". Com medo de fazer alguém desistir antes de tempo de algo que no fundo, nós até gostamos um bocadinho também.

No fundo isto é a prova de como toda agente foge com medo da sinceridade, da honestidade para com alguém e consigo próprio, muitas das vezes.  Chama-se a isto ser correcto? 

Isto é a essência humana a querer desentender-se. Quem seria eu para mudar isso. Agora percebo porque é que há tanta falta de amor entre as pessoas. Já ninguém pode gritar aos céus o quanto gosta de alguém, senão na melhor das hipóteses terá que fazer as malas e fugir atrás dela para o outro lado do mundo. E de avião, porque com a rapidez a que as pessoas querem fugir de um gosto e ti, a pé não se safam.

Desculpa se três palavras tão pequenas te assustam. A ti e a metade do planeta terra.
Mas isto é mesmo verdade. 

Patrícia Luz
26 de Novembro de 2013


sexta-feira, novembro 29

Nazaré

Escreverei com o coração na boca ao amor que me une a esta terra. 

Não é de hoje. Talvez desde o meu terceiro dia de vida, altura que regressei em corpo àquela que foi a terra que me viu crescer durante uns anos, que há algo muito especial que nos une. Sempre o expressei. Sempre me orgulhei. Sempre o mostrei de corpo e alma. E assim o continuarei a fazer.

Aos que nunca lá foram, não vão entender o que vou dizer. Porque a magia das coisas tem que ser vivida para poder ser expressada e entendida. Aquela terra é mágica. As casas todas caiadas a branco transmitem a paz que Deus não conseguiu implementar na terra. Há um enigma em todas as ruelas, estreitas, que transpiram tradição em cada fogareiro deixado à porta, muitas das vezes com brasas que deixam fugir o cheiro a sardinha assada naquelas tarde solarengas de verão em que todos os caminhos vão dar à praia. À praia. Quantas histórias podia tão simples palavra contar? Todos os nazarenos que lerem isto vão entender. Não há refúgio maior que aquele. Não há tesouros tão bem guardados como aqueles que aquela praia guarda. Se ganhasse boca de certo que se inventaria uma nova bíblia. Quantos namoros começaram sentados no paredão da marginal? Quantas aventuras de verão tiveram lugar nas tradicionais barraquinhas à beira mar montadas? Quantas lágrimas se enterraram nas pedras do porto de abrigo? Quantas memórias guarda o farol? Quantos carnavais se viveram ali "àrrebolar"? Quantas noites ali se passaram? Quantos beijos, sorrisos, gargalhadas .. se perderam ao som do mar? O mar. O som do mar. O que seria da Nazaré sem o mar. Há um mistério em cada onda que ali morre. Há uma força inexplicável. Não há mar maior do que aquele, azulão de inverno, translúcido de verão. Há segredo! Lembro-me de acordar naquele que era o meu quarto na urbissol e vislumbrar as tempestades de inverno ao longe, lá no fundo; acho que foi mesmo aí que me apaixonei para a vida pelos raios e chuviscos a atacar a imensidão daquele mar que via da janela. Também aquela casa é mágica.
Aquele cheiro a maresia é inconfundível. Penso que todos os amantes do mar deveriam ter o luxo de poder viver aquele cheiro todas as manhãs. 

E por falar em amantes do mar, quem é que conseguiu viver a infância sem comprar uma prancha de bodyboard de esferovite? Como me lembro de comer areia às colheres com o meu irmão nos quebra-côcos gigantes para o nosso tamanho onde nos enfiávamos sem quase saber nadar. Não sei como ainda estou aqui para contar esta história e com os dentes bem de saúde.  Aquelas tardes até ser noite, de lábios roxos da gélida água onde o sol se punha no cantinho do promontório, raiando a vila de uma cor dourada que a tornara mais bonita ainda, de bola de berlim na mão - que era única maneira da mãe nos arrancar da água -, serão para sempre inesquecíveis. 

Não sou nazarena de raiz, mas sou de alma e coração. Lembro-me da minha ama. Estas fotos não me fazem esquecer dela. A dona Manuela, tratava-me como uma filha, dela e da terra. Vestia-me a rigor: sete saias e brincos de ouro. Quantas terras em Portugal vestem a tradição desta maneira no dia-a-dia? Quantas terras se amam pela pronuncia que têm? Que saudades! Que saudades de ouvir o entoar daquele "óh môr.. que vames fazere hôje? Brincar ná âreia e vere o már? Ou vames à batel comer um barquilhêre de chocolate?". Era uma princesa nas mãos daquela mulher! Como qualquer pessoa será nas mãos de uma nazarena. Não há raça como aquela! Amor por quem pratica o bem, ódio no corpo a quem quer o mal. E tenham cuidado que ódio no corpo pode querer significar muita coisa. 

Enfim.

Por tudo isto é que fico triste agora. A Nazaré é o orgulho de quem lá morra desde que me lembro. A Nazaré nunca deixou de ser linda como sempre a vi, sempre esteve à beira mar plantada, com um mar inexplicavelmente diferente de todos os lugares do mundo que tive até hoje o prazer de conhecer.
Quantos homens de trabalho nele morreram, desbravando as ondas a remo para pôr o pão de cada dia nas mesas das famílias que preferiam não pensar na fome que sentiam, dada a angustia vivida em cada noite em branco sem saber se voltariam a ver o amor das suas vidas ou o pai dos seus filhos? Quantos bodyboarders locais desbravaram a praia do norte a braços e voltaram a terra, sem nunca serem reconhecidos pela sua semi loucura, num único telejornal português? Quantos depositaram a sua vida na paixão que os une à adrenalina? Passou esta terra de um dia para o outro de uma sombra em que nunca viveu para o esplendor que há imenso tempo tinha, porquê? 

Triste não, com uma certa mágoa feliz. Feliz porque esta terra está agora onde devia estar à muito tempo, nas bocas do mundo. Nunca seria preciso vangloriar um Americano, com todo o respeito e admiração que lhe tenho - e garanto -, se vivêssemos num país com amor próprio. Amor às suas gentes, ao seu povo, às suas tradições, à sua beleza, à sua ESSÊNCIA. Isto é apenas um exemplo de um dos segredos que estava escondido. Olhemos à volta! Quais mais haverão assim por descobrir?


Patrícia Luz
29 de Novembro de 2013

curioso, escrevi primeiro o texto e só depois vi este video:

Conselhos:
- Á parte das ondas, venham experimentar o melhor Carnaval (http://www.youtube.com/watch?v=LR9V0UeABHg); À parte das ondas, venham viver uma passagem de ano em cheio; À parte das ondas, venham comer bem e beber bem.








quarta-feira, novembro 27

21ª Primaveras

No meu dia de aniversário quero relembrar três coisas que um grande amigo um dia me escreveu e lembrá-lo de como isso mudou a minha vida. No meu aniversário, porque são palavras assim e amigos como este que me fazem ver o lado bom da vida. Obrigada a todos os que perderam um bocadinho do seu dia para me felicitar; obrigada àqueles que se têm dirigido a mim encorajando-me e incentivando-me a não deixar morrer o melhor de mim, que habita aqui. Obrigada do fundo do coração à minha mãe que será sempre uma guerreira, ao meu avô e ao meu pai que me fizeram a mulher que sou hoje nutrida de valores e amor ao próximo; obrigada ao meu irmão que me ensinou a ser mãe antes de o ser, a crescer antes de tempo e a olhar para a vida com o sentido de justiça que ela merece. Obrigada àqueles que me felicitaram com frieza e demonstraram aquilo que de melhor tinham para me dar, um pouco de quase nada, que guardo também para nunca mais esquecer, porque é assim que a vida nos ensina a gostar mais de nós do que dos outros. Obrigada aos meus amigos de infância que mesmo longe habitam no meu coração para sempre. Aos meus colegas da faculdade que cresceram comigo ao longo de três anos e cujos não podia apagar da minha vida; em especial aos que se tornaram amigos leais que nunca esquecerei. Obrigada à Sara e ao Pedro que mais do que amigos são os irmãos que muita gente gostava de ter, amo-vos como tal; à Francisca por ser um porto-seguro que nunca vou querer perder. E a todos aqueles que de alguma forma entraram na minha vida para lhe oferecer um bocadinho mais de brilho. 
Em vinte uma Primaveras, o que seria de mim sem vocês. 

*
" Não deixes de acreditar e defender os bons valores que tens. Há muita porcaria aí fora, mas tu estás certa. Não te conformes com o que vês de errado. Mudar é possível. Mantém esse espírito. Pessoas como tu podem mudar o mundo para melhor e a mudança começa por quem está à tua volta. Nunca te feches para o mundo por uma pessoa que não te mereça. És uma espécie em vias de extinção e qualquer pessoa gosta de poder contar com alguém como tu. E mesmo que alguma vez não pareça, Vai ficar tudo bem".

Patrícia Luz
27 de Novembro de 2013, ao som de Natiruts.