quinta-feira, janeiro 9

(a)mar


(...)

Olhar para ti é encontrar-me. É perder-me também. Há um paralelismo entre mim e aquilo que és um bocado difícil de explicar, mas fácil de sentir. Vivo-te quando te vejo, te oiço, te imagino. Sabe-me bem viajar até ti. Sabe bem confiar-te segredos e esperar que os guardes para a eternidade. Sabe bem ver-te vivo, ambicionando abraçar a terra em dias de tempestade e despi-la de ti em dias de calma. Fazes-me bem. Transmites-me serenidade. Talvez, tudo o que preciso neste momento.
Gosto de olhar para ti. Gosto de me perder e de me encontrar vezes sem conta num só dia, em ti.









domingo, janeiro 5

Hi! 2014

Chuviscava. 
Pensava para mim como aquelas gotas caídas do céu me pareciam lavar a alma. Muitas gargalhadas se despediam dos últimos minutos do ano envoltas em garrafas de espumante por abrir e beijos por dar. Por entre a multidão, descodificava as caras que faziam sentido permanecer na minha vida e deixava passar outras que ainda dela não faziam parte; por ora, algumas já dela tinham saído. Nunca dei grande importância a estas festividades. Escolher o sitio para passar o ano quase sempre foi um arrasto e não uma iniciativa. Apesar disso, não me tirem o mar nem o fogo de artificio. Pouco mais importa. Existe alguma coisa sagrada na junção de ambas as coisas neste que é, talvez, o momento celebrado por o maior número de pessoas em todo o mundo. Há algo de tão nostálgico que me abarca naqueles dez segundos de contagem decrescente para o explodir do primeiro foguete que nem eu própria sei explicar. Seguem-se os abraços, os beijos, os gritos e as felicitações entre amigos. Um minuto, nos dez ou vinte que se seguem, a sós. Preciso sempre deles para mim. Quase sempre lavada em lágrimas, que como a chuva, sempre me lavaram a alma. Pela primeira vez este ano, fugi à regra. Talvez por achar que nunca transitei de ano com a alma tão leve.

O som estonteante dos foguetes murmuram-me no fundo os dissabores, as mágoas e os momentos explosivos daquele que foi um ano marcado pela mudança em todos os aspectos. Pelos olhos consomem-me as luzes multicolores trazendo-me cada uma delas fotografias instantâneas à memória, como quem desfolha um álbum em segundos. Em tom avermelhado, daqueles que foram os foguetes mais bonitos, veio o verão, a parte boa do verão. As noites quentes com amigos, as cervejas depois do trabalho, as tardes soalheiras na piscina ou na praia, os pôr de sol e os banhos de lua. O surf, a música, o cheiro a areia molhada. A saudade. Em tons de azul, as paixões que não passaram disso mesmo. Os arrepios no estômago, as borboletas no ar. As conversas do politicamente correcto e os abraços de quem não tem nada a perder. Espaços mortos que nos fazem aprender a viver. A verde, a esperança; os objectivos, as metas por cumprir, um livro aberto, o que realmente nos faz respirar de peito cheio e sangue nas veias. O que obviamente transitará dentro de nós: o futuro. E por fim os morteiros, agressivos, que representam tudo o que morreu ali, fazendo parte para sempre da nossa vida e da história que temos para contar, mas guardado num baú a que chamamos ano dois mil e treze e ao qual podemos voltar para nos lembrarmos o que rimos, o que chorámos, mas sobretudo o que aprendemos. 

Dez minutos. Dez minutos de olhos translúcidos postos no céu e ouvidos selados; braços caídos ao longo de um corpo que não está de todo ali. 

À minha volta um novo ano começa.
Os namorados beijam-se sofregamente como se não houvesse amanhã. As famílias protegem-se. Simultaneamente, as rolhas do espumante ouvem-se como tiros de pressão pelo ar a um ritmo alucinante. Comem-se as passas e pedem-se desejos. Novos amores nascem no entusiasmo dos copos ingeridos em excesso, muitos terminam pela mesma razão. Outros apenas se despedem. Os amigos abraçam-se. E muitas desculpas se pedem. O dinheiro é insignificante. Fotografam-se todos estes momentos sem dar por ela. Conectam-se todos os telefones apenas às pessoas mais importantes da nossa vida naquele momento. Vive-se Intensamente!

No fundo, se o ano inteiro se converte-se naqueles dez minutos, talvez tudo soubesse realmente a vida.



Que dois mil e catorze seja memorável!
Que a mudança nunca me falte, 
que o amor seja realmente amor, 
que desculpas não fiquem por pedir, 
que a sinceridade abunde,
que a amizade cresça,
que não falte emprego,
que a crise de valores a que se assiste mude de rumo,
que o sexo tenha um bocadinho mais de amor, 
que a vida seja feita de coisas insignificantes com muito significado. 

O meu obrigada aos que perdem um bocadinho dos seus dias a vir aqui. A esses os meus votos sinceros de saúde, amor e sorte neste ano que agora começa! ****





terça-feira, dezembro 17

Aprender a errar melhor


«Prefiro errar sendo fiel a quem sou, do que acertar não sendo eu», em A Persistência da memória de Daniel Oliveira


Perdi-me. Perdi-me em ti porque me tinha encontrado. Sabes, as pessoas perdem-se muitas vezes umas nas outras na esperança de se encontrarem. E encontram-se muitas vezes no intuito de se perderem em alguém. Ou por alguém. Foi o meu caso, penso eu. Não sei bem. Não sei bem porque nunca me considerei uma "sem norte à terra"; os meus pés sempre pesaram chumbo. Vivo o que vejo, não o que imagino. Daí não me fiar em palavras rasas que enchem de ilusões corações que preferem verdades absolutas - que no amor, na paixão, ou no que lhe quiserem chamar, é coisa que vai deixando de existir, se é que alguma vez existiram, eis a questão. 
A minha vida nunca me deixou perder muito tempo com coisas desinteressantes, coisas essas onde incluo não só coisas, mas pessoas a que prefiro não dar esse nome. Porque para mim pessoas, são pessoas interessantes. E tu eras (és) pessoa de corpo e alma. Eu disse-to. Eu repeti-o. Eu mostrei-to. Dei-me a esse luxo, a que agora prefiro chamar erro. Errei sempre com as pessoas que considero interessantes o suficiente para me fazerem perder o norte. Errei sempre em ser fiel a quem sou. Aliás, em mostrar demasiado isso. 

Tens toda a razão.
Aliás, não tens razão nenhuma. Houvessem mais pessoas como tu, era o que no fundo me querias dizer.

Existem dois tipos de inícios numa relação, que pode nunca chegar a ter inicio, se é que me faço entender. Aqueles em que as duas pessoas se desejam sofregamente, a que chamamos paixão. E aqueles em que uma começa por ter uma empatia e nunca se sabe o que esperar da outra, a que podemos chamar muita coisa. Nomeadamente: inicio de um desamor, inicio de um quase-amor, inicio de um jogo de ping-pong - "tu és minha e eu não sou teu, mas podemos ir sendo um do outro se deixares" - ou, simplesmente, uma coisa sem nome, a que vão chamando "sexo sem compromisso" -eu prefiro chamar-lhe "tirar a barriga de misérias" (ou enche-la delas, na maior parte dos casos). Adiante.

Não tenho tempo nem paciência para estas tretas! Para mim é tudo mais simples: as pessoas ou gostam umas das outras, ou não gostam. Se gostam devem mostrá-lo - é aqui que temos o caldo entornado, acreditem!-, se não gostam têm bom remédio, não se dêem a esse trabalho. A ilusão é uma coisa feia. Tão feia quanto a mentira ou a traição. Dói quase na mesma medida quando morre em realidades.

O amor dos nossos dias é estúpido. Amor não é a palavra certa. Traduzam-me em palavras as primeiras borboletas no estômago que todos sentem, é aí que quero chegar.

Porque há-de uma pessoa fazer-se difícil para aquela que mais quer deitada na sua cama a fazer-lhe cafunés ao sábado à noite, quando sabemos que o que ela quer é deitar-se connosco também? "Para dar pica". Entusiasmante, mas estúpido. Porque é que se hão-de adiar os "eu gosto de ti" se se gosta mesmo naquele momento? "Para não assustar as pessoas". Verdade, mas estúpido. Porque é que deixamos os bilhetinhos para uma altura em que podemos dizer as coisas no ouvido, em vez de os usarmos nas alturas em que todas as palavras ditas fazem mais sentido? Primeiro porque as pessoas hoje em dia não estão habituadas a receber bilhetinhos, segundo porque podem correr o risco de um "Bom dia" soar a um "Fica comigo para sempre" e terceiro porque já pouca gente corre o risco de dizer o que sente. Vamos escrevendo por aqui e por ali, directa ou indirectamente, na esperança que as palavras cheguem a quem devem chegar, na quase certeza de que chegam mesmo - senão não o escreveríamos certamente -, aquilo que queremos que elas saibam sem nunca o dizermos. Estúpido? Verdade. Olhem para mim aqui.

Se não, quantas pessoas tem coragem de vos olhar nos olhos? Quantas pessoas marcaram um encontro só para vos dizer "Eu gosto de ti com todos os defeitos que tens chapados na cara". Quantas pessoas acordaram de manhã para vos deixar um "Bom dia!" colado na porta do carro antes de irem trabalhar? Quantas pessoas vos quiseram ver bem quando nem vocês sabiam bem como eles estavam naquele momento? Quantas pessoas tiveram a coragem de vos dizer o que mais ninguém diz? Quantas pessoas se preocuparam primeiro com o vosso bem estar, quando no fundo vocês eram o bem estar delas? Quantas pessoas vos vão abraçar e desejar sorte quando acreditam que a vossa sorte está ali, a fugir-vos dos braços naquele momento?

Poucas.
Talvez erre tanto em dizê-lo como em fazê-lo.

Aprendemos que as atitudes ficam com quem as pratica e que o amor (ou qualquer outro sentimento entre duas pessoas) não se compra assim. Aliás, o amor não se compra: o amor são as próprias atitudes. E se elas não chegam para que as pessoas se gostem na mesma medida é porque efectivamente não nasceram para se encontrar dessa forma. Ou talvez tenham nascido, mas não naquela altura ou naquelas circunstancias. 


Quem sabe? Ninguém.

Além de estúpida, sinto-me bem. Descansa. 

A vida continua...
(ouviste? A vida continua...)

Patrícia Luz
16 de Dezembro de 2013