sexta-feira, janeiro 17


Pai,

No meio da azafama em que me encontro neste momento por não seguir, como devia, os teus concelhos à risca, roubei meia hora à contabilidade para te escrever. 

Para te agradecer. 
Para te agradecer a mulher que sou hoje. Para agradecer os valores que sempre me transmitiste. Para te agradecer a educação que te faz agora orgulhar de mim. Para te agradecer as horas ínfimas de jantar sem que nos pudéssemos levantar da mesa antes que terminasses; e mesmo assim, sem antes pedir licença. Para te agradecer as tardes de férias em que me ensinaste a pegar correctamente na caneta e a escrever pela primeira vez o meu nome aos quatro anos de idade. Para te agradecer os finais de verão comemorados com sapateira e camarão na mesa da rua da nossa maravilhosa casa do Alentejo por que lutaste até não haver mais suor para te escorrer das mãos, como se estivéssemos a jantar na melhor marisqueira do mundo. Por me fazeres trocar o pneu e me ensinares o funcionamento do motor de um carro para não ser mais uma mulherzinha como as que se vêem por aí. Por me teres ensinado a fazer um baloiço em madeira, quando o que eu te pedia era uma barbie para brincar e a distinguir uma chave de fendas de uma chave inglesa. Pelo papagaio que pusemos no ar com mais de vinte metros de cauda - lembras-te da missão impossível que foi? E de quantos dias esteve no ar? De quantas pessoas duvidaram que aquilo voasse? Vencemos juntos! 
Para te agradecer as lágrimas dos verões arruinados a estudar matemática. Os dias em que me tentaste ensinar o alfabeto em código morse e me ralhaste por ainda não saber a tabuada de cór; as horas que perdeste a explicar ao Gustavo a sorte que tinha em não ter que ir para a guerra, e os passeios de bicicleta ao fim da tarde pelas serras mais difíceis de subir, só para poderes desafiar-me a mim e ao mano a sermos os mais fortes e resistentes e elogiar-nos no fim. "A vida é como subir a serra da sonega, se se esforçarem na subida e não desistirem a meio, a descida vai-vos saber tão bem. Não é tão boa aquela sensação do vento a bater-nos na cara quando descemos a mil à hora?". Nunca me irei esquecer de ti, a descascar uma maça sentado no murinho de casa a dizeres esta frase, enquanto o Gustavo comia a maça com os olhos e eu descalçava as sapatilhas para lavar os pés, como sempre, na rua. 
Para te agradecer teres-me ensinado a andar de bicicleta, de patins e a nadar. A mergulhar sem a mão no nariz e a fazer tiro ao alvo com a espingarda de pressão. A marcar golos de trivela ao Gustavo quando ele se armava em guarda redes. Por me confiares todos os teus mais ínfimos segredos. Por depositares em mim a confiança que depositas. Por me teres feito ganhar o gosto pela escrita, pela leitura, pela música, pela boa comida tradicional portuguesa. Por me teres feito começar a gostar de bacalhau, por me fazeres continuar a odiar favas. Por me ensinares a ser poupada e prudente. Por me fazeres o corte de cabelo mais horrivel de sempre e desde então detestar cabeleireiros.
Por me teres sentado um dia à mesa da cozinha e me teres dito que "amar é coisa mais bonita da vida, filha, por isso nunca iludas alguém nesse sentido se não tiveres o propósito de o amar na mesma medida", por me ensinares que "a traição é feia e desumana", por me explicares que "cada coisa tem o seu tempo, e que o tempo é dono de todas as coisas" e que a família quanto maior e unida, melhor.
Por me incluíres em todas as tuas batalhas, por me ensinares a lutar pela justiça mais que tudo e a nunca fazer aos outros o que não gosto que me façam a mim.

Por todas as fotos que me tiraste e por todos os vídeos que tenho de quando era bebé, onde nunca apareces mas em que estiveste sempre presente. Por te teres dado ao trabalho de fazer uma lista de 102 nomes para me dar e eu ter andado uma semana sem nome à tua pala. Por nunca te esqueceres de salvaguardar o nosso, meu e do mano, futuro apesar de todos os dissabores que a vida nos tem dado. Por me dizeres que estou linda quando estou linda e horrível quando estou horrível e ainda argumentares que "o pai vai ser sempre o teu melhor amigo, nunca te esqueças disso. Quem iria ter a coragem de te dizer estas coisas?". Obrigada!

Obrigada!
Por todas as secas que me pregas sem fim à vista. Pela tua casmurrice pegada. Pelo teu pessimismo. 

Porque sem dúvida alguma que é tudo isso que faz a mãe dizer "és tal e qual o teu pai" e me fazer sempre responder que isso é um orgulho!

És isso mesmo. Um orgulho para mim, a cima de tudo.
No fundo, sei que tudo o que te tenho a apontar são coisas que ninguém faria por mim.
Um beijo, um abraço e os meus mais sentidos Parabéns, PAI.

Que a sorte e a saúde esteja do nosso lado, para que ainda possamos estar ao lado um do outro.






quinta-feira, janeiro 16

Viver: ela, ele e o mar

Parecia que se conheciam há anos. Apesar de lhe poder dizer isso, preferia guardar cada instante como se fosse o último. 
Viver. Guardar cada instante como se fosse o último é isso mesmo, não é?

Viviam.  
O vento fazia os cabelos dela esvoaçar descontroladamente. Naquele momento talvez não se sentisse assim tão bonita como as protagonistas dos filmes românticos que via sozinha aos Domingos à tarde, quando deprimia a comer pipocas e chocolates na esperança de ter quem lhe segurasse docemente a cara com as duas mãos, prendendo assim os cabelos soltos, num daqueles i love you, stay with me desafogados, capazes de pôr termino a mais um final feliz; apesar disso, havia uma calma interior que a abrigava de tudo e de todos naquele lugar. Como som de fundo ecoava o mar. Um mar que não era o de sempre, encomendado a propósito, quem sabe, por um Deus qualquer. As ondas erguiam-se como não é costume e embatiam com a força de mil homens naquele recanto de terra, proporcionando aos de mais que por ali andavam um espectáculo que poucos se irão esquecer. Do lado de cá, estavam eles. Na cabeça dela, pouco mais importava além deles. Ele e o mar.
Abraçada às suas costas, com o olhar posto no horizonte por cima do que o seu ombro a deixava ver e as mãos encruzilhadas num abraço sem fim, protegia-se da atmosfera salgada que teimava em não dar tréguas. Lembrava-se da sua terra, do seu pai e dos sábados de manhã passados junto ao mar quando era miúda; lembrava-se como a vida dá voltas e como a última volta a fazia estar agora ali, abraçada a um porto seguro que ainda não era o dela. 

Fechava os olhos. Fechava os olhos e abraçava-o com força. A magia das coisas está na maneira como queremos olhar para elas. E com os cabelos a esvoaçar naquele abraço fechado, a magia das coisas estava onde ela menos esperava: entre o som do mar e o seu coração. 


Fazes-me bem. Tu e o mar.

Patrícia Luz
15 de Janeiro de 2014
Ben Howard



sexta-feira, janeiro 10

(...)

Outro dia pus-me a pensar no amor. Outro dia, que podia ter sido há uma hora atrás. Uma romântica assumida nunca se consegue libertar muito bem deste síndroma. Andamos sempre com ele de mãos dadas para todo o lado. Usufruímos dele a toda a hora. Os olhos de uma pessoa assim vêem sempre além do que estão a ver, sentem sempre mais além do que querem sentir. Momentos são mais do que isso. E "mais do que isso" chega a dar-nos muitas dores de cabeça. Mas muitas alegrias também. 
O amor não é só drama. O amor nem devia ser drama nenhum. Amor por si só é amor e pronto. Sem mais nada a acrescentar. O resto é o resto.. e isso já são misturas de amor com outras coisas.

Pensava. Pensava como o amor existe em duas dimensões distintas. 
O amor efectivo e o quase amor, que não deixa de o ser. Distinguem-se pela presença física. O amor efectivo está dentro de um abraço fechado, de um edredon enrolado ou de um segredo dito com a boca noutra boca qualquer; nas mãos encruzilhadas, no perfume, no toque, no olhar. O quase amor, está na ausência disto tudo, está em pensamento, está no que ficou por fazer, no que se sonha fazer ainda; está na saudade, no desejo, no silêncio do quarto e da noite, numa música ou numa imagem qualquer. Tão simples quanto isto. Apesar disso, creio que há tanto amor numa coisa como noutra. Afinal de contas, que amor é realmente amor se não o é na presença e na ausência?

Pensava nisto porque pensar em ti e no quanto gostava que estivesses comigo quando deito a cabeça na almofada, é uma boa definição de quase amor, não achas? (...)


Patrícia Luz
10 de Janeiro de 2014