segunda-feira, fevereiro 10

Ela é ...




Ela é um misto de mil coisas. É o equilíbrio entre o tudo e o nada. É o adeus e o fica. O avesso é quase sempre o seu lado certo. Ela é mistério; é segredo. Vai deixar-te muitas vezes a pensar que o seu lugar é do outro lado do mundo quando no fundo quer estar o maior tempo possível ao teu lado. Vai corar cada vez que lhe disseres coisas que a deixem embaraçada e olhar os botões do teu casaco quando quiser esconder um olhar triste ou um sorriso secreto. Vai segurar a tua mão como ninguém. Ela adora mãos. Vais perceber isso. Vai encorajar-te a ir sempre que o seu desejo for que fiques. Vai desejar-te sorte quando achar que sorte é tê-la na tua vida. Ela é o medo e a mudança. A incerteza e a confiança. Ela é amor dos pés à cabeça. Ela é frágil quando ninguém está a ver. A sua protecção é a dúvida de há uns tempos para cá. Ela é mar. E chuva, e música.. e silêncio. Ela é jazz, bossa nova, chá e voodka preta. É piano, livros e meia-luz. É chocolate negro e frutas tropicais. É simples e contenta-se com pouco. Mas sempre com o melhor. Ela é distraída, mas aprecia pormenores. Não se vai esquecer do dia em que te viu pela primeira vez nem da mensagem que a deixou a rir para o telefone com o coração na boca. Ou da música que passava naquele momento. Não é romântica, mas sabe surpreender, ou pelo menos tenta. O que já não é mau. É atenta. E por vezes faz-se de desentendida. É mais ouvidos que  boca. É ciumenta, mas não conta a ninguém. É ironia e riso fácil. Protectora ao extremo de quem ama,  mas desleixada ao máximo com os amigos. Péssima com datas de aniversário. Fria, mas sincera. Vai ser a primeira pessoa a recusar um jantar de sushi, chinês, tailandês ou até mesmo um café. Mas se quiser mesmo ter-te na vida dela montará uma cafetaria se for preciso. Se te quiser mesmo na vida dela, não vai ser fácil, mas vai valer a pena. Ela perdoa mas não esquece. Pensa com o coração e age com a cabeça. E é isso que a trai muitas das vezes. Erra em não querer errar; em pensar de mais no bem dos outros. Em dizer tudo o que sente. Há quem já lhe tenha chamado "a menina com a mão no coração", mas o que é certo é que já foram mais as vezes em que andou com o coração nas mãos.
Ela é vestido preto e salto alto; sweat xxl e ténis rotos. É pé descalço e unhas por pintar. É trabalho e força de vontade. É amor em todas as pequenas coisas que faz. Ela é o ontem e o hoje, porque o amanhã pode não chegar. Não recusa uma boa aventura e é louca o suficiente para fazer tudo o que lhe vai na alma.
Ela é olhar penetrante e beijo na boca. É abraço apertado e segredo no ouvido. É sorriso na boca e tem mil histórias para contar. Reinventa-se todos os dias. Só lhe custa pôr algo na cabeça. Porque quando decide não há retorno. Garanto.  É um poço de orgulho e não troca o certo pelo incerto. Mas arrisca sempre que possível. Já acreditou mais no amor eterno. Mas defende-o sempre que pode. Nas adversidades tenta ver o lado positivo das coisas. Mas se tudo correr mal... 

Ela acredita que "Vai ficar tudo bem".

Patrícia Luz
9 de Fevereiro de 2014






quarta-feira, fevereiro 5

A debate




Não querendo bater mais no ceguinho, como se costuma dizer em boa gíria portuguesa, não posso deixar de me pronunciar face à vontade que tive de saltar para dentro da televisão ontem à noite, ao assistir ao debate emitido pela rtp1 cujo tema incidia sobre "As Praxes: sim ou não?". 
Apesar de já ter transmitido a minha opinião anteriormente aproveito para encerrar o assunto em modo de rescaldo.  

Acredito que nunca antes um debate da rubrica "Prós e contras" tenha sido assistido por um tão elevado número de estudantes. A prova de como não somos uns tristes adormecidos que por aí andamos e que no fundo ainda nos conseguimos erguer nas adversidades e ter algum peso nesta sociedade que tem prazer em nos enxovalhar, em nos arrumar debaixo do tapete e espezinhar com força como se nos tratássemos de uma pedra no sapato de um país que atravessa uma crise não só de dinheiro, mas de ética, moral e cívica. Contudo, isto não deixa também de ser a prova de como somos - e isto não é de agora - um povo que fica muito à margem do leito principal. Isto porque, verdade seja dita, com a lista infindável de problemas com que o Ensino Superior se defronta na actualidade, estar a dar importância primordial a uma temática que até aqui estava em banho maria e com a qual se convivia sem grande aparato é no mínimo passar de cavalo para burro. Aliás, para besta. Que pelos vistos é isso que atormenta muita gente. 

Há duas coisas que fazem confusão na minha cabeça. Não sei se será só na minha, mas espero que sim porque será sinal que sou a única "compreensão lenta" nesta história, que já vem de há muitos anos atrás.

Hierarquização. Quando há uma preocupação tão grande da parte de alguns com o facto de existir uma hierarquia na vida académica que sobrepõem os mais velhos da academia aos mais novos, estarão todas essas pessoas esquecidas que a democracia em Portugal não é mais do que um poço obscuramente hierárquico? Que a vida é uma hierarquia desde que nascemos? Que os meus país terão mais autoridade sobre mim até determinada altura, altura essa em que atingirei a maioridade, por exemplo, que numa empresa o meu patrão terá um papel preponderante no meu crescimento profissional ao crucificar os meus erros e dando-me a mão para vencer, ou que numa equipa de futebol existe quase sempre um capitão...
O que é a Universidade senão uma família, uma empresa ou uma etapa da vida em que nos despedimos do colo e da protecção e somos entregues aos bichos? É aqui que começa uma jornada para o resto das nossas vidas. Não será a praxe das primeiras experiências que nos ensinam a crescermos enquanto seres humanos num mundo que caminha a passos largos para a descentralização da igualdade? Pensemos. 

Liberdade. "Liberdade significa o direito de agir segundo o seu livre arbítrio, de acordo com a própria vontade". Quando é invocada  a "falta de liberdade" num debate público em que se fala de um acto em que os alunos, na sua maioria maiores de idade, tem o total direito de escolha das suas ideologias - e há casos em que não o fazem e depois queixam-se, pelos vistos - eu só posso rir às gargalhadas disto. Assim como poderão os movimentos anti-praxe rir na minha e na cara de milhares de estudantes que são insultados e gostam, que são sujos e gostam, que rebolam pelo chão e gostam. Liberdade! Temos a liberdade de gostar, não é? Estúpidos? Talvez. Com gosto? Com certeza. Talvez seja isto que faz confusão a muita gente. 

A mim também me faz confusão porque é que as pessoas se amam e não estão juntas. Gostam umas das outras e não o dizem. Querem-se abraçar e no fundo se repudiam. É a vida. Há coisas que não são mesmo para entender. Fazem sentido para alguns e pronto. A praxe é uma delas.  

Aproveito ainda, para desafiar a Rtp1 a juntar dois estudantes, um praxado e outro não. Qual terá mais histórias para contar? Vivências para recordar? Amigos para a vida? Qual deles chorará quando for a hora de deixar a academia? Qual dos dois voltará à universidade como se fosse a primeira vez no ano seguinte? Haverá diferenças significativas nas médias? Nos anos em que põem termino ao curso? Qual teve um papel mais activo na academia? E na sociedade? Qual dos dois, passados uns anos se vai poder rir quando for pedir um crédito à habitação e do lado de lá do balcão encontrar aquele com quem rastejou na lama e dividiu alhos para difundir o mal pelas aldeias? Afinal de contas, o que fica da praxe também devia ter algum peso na balança das ponderações, digo eu. Viver é muito mais do que respirar. 

É importante referir que quando falo em praxe me cinjo à praxe humana e consciente. À praxe que começa no primeiro minuto com um discurso que explicita que a praxe deve ser encarada como uma brincadeira de integração e que todos os praxantes passaram por ela e continuam ali a sorrir para os caloiros que agora chegam. Que a praxe não é obrigatória e que qualquer um a poderá abandonar ou recusar em determinado momento quando estes o achem conveniente ou a achem imprópria. À praxe que finaliza com os caloiros a implorar por serem praxados. À praxe que é muito mais do que tradição, que é amizade a cima de tudo. 


Não se julgue a dignidade de pessoas que nunca deixam de o ser consoante a liberdade das escolhas que tomam.
Enquanto praxada que fui e praxante que ainda sou, considerei-me Digna Besta, Digna Caloira, Digna Perua, Digna Manceba, Digna Académica e actualmente Digna Veterana. Honrei o meu percurso académico da maneira que escolhi e isso já ninguém me tira. 

É lógico que é uma questão controversa e dá lugar a vários pontos de vista. Respeito e concordo com alguns. Não sou a favor de muita coisa na praxe e não repudio totalmente pontos tidos como fundamentais nos movimentos anti-praxe, mas parece-me de bom tom que haja um meio termo capaz de solucionar esta bomba-relógio que decidiu aterrar na imprensa portuguesa. Que o bom senso prevaleça a cima de tudo. 


Patrícia Luz 
4 de Fevereiro de 2014


Ps. Em relação ao debate propriamente dito:

- Os moderadores não deveriam ser imparciais? 
- Os intervenientes não deveriam ser exemplo das partes? Não só em bons argumentos mas em educação, profissionalismo, postura, ética..
- O público geral não tem direito à palavra? 
- Se nós somos uma geração à rasca, a srª Dr. Fernanda Câncio nasceu fora do prazo de validade? 





sábado, janeiro 25

Opinião "A tragédia do Meco"


Carta Aberta a um DUX


Após ler esta carta publicada e republicada em vários blogues do nosso país, acompanhada de comentários e aplausos expressos em palavras, rumei à sala de minha casa e, coincidência ou não, falava-se pela milésima vez da "tragédia do meco". Mostravam-se relatórios das reuniões da comissão de praxe da universidade Lusófona e falava-se deles como quem fala  de actas de maçonaria, ou algo equiparado.

Apesar de concordar com muitas das coisas que nesta carta são ditas, a sua maioria até, e ser um pouco suspeita no que toca à temática das praxes, aqui vai a minha opinião em forma de revolta sobre a "tragédia" que tem vindo a ser pintada de cores falsas nos mais diversos locais dos media

É mais do que lógico que este incidente tenha sido provocado por um ritual de praxe. É quase imediata a imagem que me vem à cabeça quando oiço dizer que o DUX - personalidade que representa o expoente máximo da praxe - foi o único sobrevivente deste momento pouco feliz que se tem falado nos últimos tempos, quando seis jovens são dados como desaparecidos por uma onda na praia do Meco em meados de Dezembro.

Mas daí a invocar a praxe como a justificação peremptória da morte de seis jovens estudantes e descrê-la perante uma sociedade cuja maioria das pessoas não sabe efectivamente o que ela é ou para que serve, na minha opinião trata-se de tapar o sol com a peneira. 

É importante referir que as praxes têm sim o intuito de receber, acolher e integrar os novos estudantes recém chegados a uma nova instituição, curso e/ou cidade incutindo-os na tradição académica e, instruindo-os para o seu crescimento pessoal e profissional. 

Este é e sempre será o ponto fulcral a reter desta matéria. 

Pergunto-me que regulamento de praxe é esse de que a universidade em questão se faz acompanhar, que em pleno dezembro organiza fins de semana diabólicos com rituais "masoquistas" de que temos ouvido falar. Isto porque o ano lectivo universitário tem inicio em meados de Setembro/Outubro e é nessa altura que as praxes fazem todo o sentido. Depois, porque é que era um orgulho para os pais ver os filhos ser activos no seio académico - e continuariam a ser caso nada disto tivesse acontecido - e agora tudo isso é uma tragédia? Porque nenhum deles sabia ao certo o que cada um deles fazia, certamente, como 90% dos pais deste país que têm os filhos a estudar no Ensino Superior. Como praxada que fui, NUNCA fiz nada que não quisesse de livre e espontânea vontade. Terão esses seis jovem sido anestesiados ou tornados robôs telecomandados de um momento para o outro? Terá o Dux virado o novo Deus do século XXI a que todos nós temos de obedecer imperativamente? Será a praxe um momento suficientemente relevante para a pôr a vida em causa? Porquê? Desde quando?

É uma questão de bom senso distinguir o momento em que uma tradição  reposta em Portugal desde 1919 cuja finalidade é a já expressa supra, passa a ser um acto que põe em perigo a integridade física de qualquer ser humano minimamente consciente dos seus actos. 

Assim, é de lamentar a dor de seis pobres famílias que vêem os seus filhos perdidos em prol de uma estupidez em que alinharam sem consciência. Estupidez, repito. Perdoem-me a frieza das minhas palavras. 

Não sou nenhum juiz e o meu blog não é, nem nunca será um tribunal, mas - na minha opinião - tão culpado é o Dux como os seus seguidores. Sinto-me triste, impotente e inconformada ao ver o nome da praxe manchado por sete pessoas inconscientes que não souberam honrar a tradição como deviam perante um país que a quer matar a cada dia que passa. Sinto-me fria e insensível ao escrevê-lo desta forma. Mas feliz por saber que foi a praxe que me ensinou que a vida é uma luta constante pela sobrevivência; que tão depressa estamos por baixo como depressa devemos honrar o compromisso de estar por cima. Que a amizade que nasce nas adversidades certamente perdurará mais tempo. Que contar até dez e respirar fundo evita muitas chatices. Assim como os sapatos do traje, por muito iguais que sejam, têm sempre uma história diferente para contar. 

Por tudo isto não sejamos cegos. Esta é a minha opinião e vale o que vale. Não se trata de discutir se a praxe é boa ou má. Tratei de a assumir como boa e defendê-la. 


Dura Praxis, Sed Praxis
Patrícia Luz
25 de Janeiro de 2014