sexta-feira, abril 4

Tristes dias felizes




Sorri. Faz palhaçadas e ri-se delas próprias. As pessoas fortes sorriem muito.
Mentira.
As pessoas que parecem fortes sorriem muito. Vi-lhe tantas vezes os dentes ...
Fala muito. Pouco, sobre si.
(Pobres olhos que falam tanto para quem os entende)
Sabe o que é correcto. Mas não o cumpre. Embora quisesse.
Ninguém suficientemente ambicioso desiste do que lhe faz mal, quando esse pode ser o lado certo do avesso em que se encontra.

Sorri. Sorri muito. Mas não é forte. Nem feliz.
Quer ser.
Gosta da vida! Ama muito a vida.
Ama muito a puta da vida.
Mas essa gaja teima em não lhe devolver o que a si lhe pertence.

Harmonia.

Ás vezes é preciso amar uma puta para perceber o outro lado.
Não. Não é esse.
É o lado certo, que se perdeu na incerteza de que um dia tudo voltaria a ser igual.

Malditos, Tristes dias felizes!

Patrícia Luz
4 de Abril de 2014
ao som de Ben Howard






quarta-feira, abril 2

Gostava de me apaixonar por ela. 


Pensava ele para com os seus botões enquanto lhe procurava os defeitos. Esticava os dedos de uma mão de forma a poder encolhe-los por cada um que enumerasse. Distraia-se na sombra do seu pensamento barulhento. Perdia-se por entre os versos da música que trauteava sem querer. Desenhava-lhe o passado nas entrelinhas... 
Enquanto isso olhava os dedos esticados.  Pensava nela. Pensava em tudo o que não gostava nela. Pensava no porquê de não haver (quase-) nada que o fizesse encolher os dedos na certeza que de que aquela era a pessoa certa na hora errada. 

Talvez as pessoas certas venham a horas. E esse seja defeito suficiente para com uma mão segurar a outra e fechá-la num abraço de quem tudo tem a perder e sabe disso

Gostava de me apaixonar por ela ... gostava.

Patrícia Luz
2 de Abril de 2013
ao som de Simple Things


terça-feira, março 25

Decide tu também.




Os meus dias de drama. Que agora são os teus. 

Esta é a minha história. 

Um dia, há algum tempo atrás, sentava-me aqui em busca de forças que me fizessem renascer nas cinzas que se criaram desde o dia em que ele partiu. Tudo eram sinais. Sinais da sua ausência, sinais da sua presença ou omnipresença, que para mim era o que isso significava. Agarrava-me a isso e não queria mais saber de mim. Eu só queria saber de mim no dia em voltássemos a ser nós.  

Todos os loucos apaixonados pelas cinzas de um amor o fazem. Eu fi-lo durante muito, muito, tempo. Fazia apostas comigo própria de quanto tempo aguentaria sem vir à internet - porque tudo o que me fazia bem, em dobro me fazia mal -, colava post-it's no computador que me faziam olhar para isto como a máquina da minha infelicidade, apagava o número de telefone dele cada vez que tinha saudades apesar de o saber de trás para a frente e de pernas para o ar. E chorava, no silêncio da noite, quando não me punha a imaginar o dia em que nos voltaríamos a ver e quem sabe ficarmos juntos por obra e graça do espírito santo. 

Por obra do espírito santo. Ora aqui está a boa definição para a falta de amor. 

Lembro-me do dia em que decidi deixar de o amar. Não me lembro do dia em que o fiz concretamente. Continuo a atribuir-lhe um carinho muito especial. Mas foi um bom começo. Há coisas na vida que custam mesmo é começar. É como as idas ao ginásio ou as dietas rápidas pré verão. Se não decidirmos que tem mesmo que ser, ninguém o fará por nós. O amor não é excepção. 

Dói. Dói muito. Doeu-me muito ver aquela que era a pessoa que imaginava toda a vida comigo - sim, os adolescentes chegam a pensar mesmo assim - entre a espada e a parede, entre o meu amor doentio e a minha felicidade adiada. Mas valeu a pena. 

"O primeiro passo para chegar a algum lado é decidir"; foi mesmo. Mas não foi assim tão simples. Nisso o amor é traiçoeiro. Tanto que quando pensas que estás mesmo a sair do circulo, vai haver algo a puxar-te, a esquartejar o teu coração e a dar cabo da tua cabeça , como deu da minha milésimas vezes, ao ponto de te deixar na merda e a acreditar que o destino está a conspirar a teu favor de novo. A vosso favor. 

É treta! 

As obras do espírito santo nunca nasceram. E um amor falhado é tudo menos amor. É uma falha! Ponto.

Depois de coleccionar falhas aprendi a coleccionar as coisas simples da vida. Uma por uma; dia após dia e a dar valor aqueles que durante anos me disseram o que não quis ouvir. O que não quis saber. O que não quis sentir. E deixa-me dizer que durante esse tempo perdi muitas coisas e pessoas que hoje podiam fazer parte da minha vida. Que podiam fazer a minha vida um bocadinho melhor.

Por isso, se um dia tudo correr mal, respira fundo e lembra-te: o sol nasce todos os dias e as tempestades nunca deixarão de existir. A vida é mesmo assim. Há forças que vêm de onde menos esperamos porque o que tem que ser sempre teve mesmo muita força.

Apesar de não me livrar dos dissabores - e ainda bem-, a vida ficou mais leve. 
Ama-te:

Decide tu também.  


Patrícia Luz
25 de Março de 2014
ao som de Foo Fighters.