domingo, abril 6

Nunca te distraias da vida





«A lição de vida é não dar lições de vida a ninguém»

Estava eu outro dia deitada no sofá, de braços caídos e mãos quase a beijar o chão quando algo me aconteceu. Chovia lá fora. Fazia sol de vez em quando. O tempo estava muito parecido comigo. Triste e optimista em simultâneo. Ora chovia a cântaros, ora o sol brilhava sob um céu carregado de nuvens densas. 

A inconstância desse meu estado de espírito atirou-me para o sofá, ofereceu-me uma melancolia pegada e sussurrou que a minha vida durante aquele dia estava destinada. A não sair dali. A não ver ninguém. A não mentir com todos os dentes que tenho na boca quando encontrasse alguém na rua e tivesse de responder "está tudo bem, obrigada". Não estava. Mas também ninguém precisava saber. A não ouvir nada, a não ser a chuva, alguns trovões anunciados pelos flashes reflectidos na janela e a televisão em voz de fundo. A dormir. A dormir o mais possível. Que felizmente essa ainda é solução para todos os males.

Sou uma pessoa optimista quando tudo está mal. Aliás, não sou. Não sou porque não acredito que nada do que penso vá acontecer de verdade. Mas penso positivo porque é sempre melhor ocupar o coração com o melhor do que a vida nos tem para dar. E quando de vez em quando o sol aparecia, também tudo parecia ficar melhor. 

Foi exactamente nesse dia que conheci a história do Manuel Forjaz. Quando sem querer o comando me escorregou das mãos, por entre o fechar de olhos que quase me faziam adormecer para a vida, e o canal mudou naquele embate com o chão. 

Nesse preciso momento dizia-se "Nunca te distraias da vida" e foi assim que me prendi ao ecrã ao ouvir a história deste grande homem. Naquele dia tudo o que eu estava a fazer era isso mesmo, a tentar distrair-me da vida. A arranjar desculpas para não sair porta fora. A arranjar pensamentos que me fizessem embarcar em nostalgias mórbidas. A anestesiar o meu corpo. A aniquilar uma alma que precisa de ser aberta cada vez que  alguém a tenta fechar. 

Como poderia eu estar ali, naquela figura triste, a ouvir um homem com cancro a sorrir para a televisão e a dizer que «a vida é para ser vivida a sorrir»? 

Nesse dia continuou a chover. 
O Manuel apresentou o seu livro editado recentemente. E eu levantei-me do sofá e fui viver a minha vida, motivada pela ingratidão a que me sujeitava ao ouvi-lo. 

Hoje fez sol. Preparava-me para distrair da vida de novo. 
Era uma da tarde e eu estava na cama. Indecisa sobre o que fazer ou em nada fazer.
«Faleceu Manuel Forjaz», foi a primeira noticia do dia.

Lembrei-me dele naquele dia a dizer de sua boca «Posso morrer da doença, mas ela nunca me matará». Levantei-me da cama e fui viver. Lembrar-me-ei disto sempre que me preparar para me distrair da vida. Lembrá-lo-ei a quem o pensar fazer também.

Hoje fez sol. Não era a sua hora ainda. 


Patrícia Luz
6 de Abril de 2014



foto. Filipa Marques 

sexta-feira, abril 4

Tristes dias felizes




Sorri. Faz palhaçadas e ri-se delas próprias. As pessoas fortes sorriem muito.
Mentira.
As pessoas que parecem fortes sorriem muito. Vi-lhe tantas vezes os dentes ...
Fala muito. Pouco, sobre si.
(Pobres olhos que falam tanto para quem os entende)
Sabe o que é correcto. Mas não o cumpre. Embora quisesse.
Ninguém suficientemente ambicioso desiste do que lhe faz mal, quando esse pode ser o lado certo do avesso em que se encontra.

Sorri. Sorri muito. Mas não é forte. Nem feliz.
Quer ser.
Gosta da vida! Ama muito a vida.
Ama muito a puta da vida.
Mas essa gaja teima em não lhe devolver o que a si lhe pertence.

Harmonia.

Ás vezes é preciso amar uma puta para perceber o outro lado.
Não. Não é esse.
É o lado certo, que se perdeu na incerteza de que um dia tudo voltaria a ser igual.

Malditos, Tristes dias felizes!

Patrícia Luz
4 de Abril de 2014
ao som de Ben Howard






quarta-feira, abril 2

Gostava de me apaixonar por ela. 


Pensava ele para com os seus botões enquanto lhe procurava os defeitos. Esticava os dedos de uma mão de forma a poder encolhe-los por cada um que enumerasse. Distraia-se na sombra do seu pensamento barulhento. Perdia-se por entre os versos da música que trauteava sem querer. Desenhava-lhe o passado nas entrelinhas... 
Enquanto isso olhava os dedos esticados.  Pensava nela. Pensava em tudo o que não gostava nela. Pensava no porquê de não haver (quase-) nada que o fizesse encolher os dedos na certeza que de que aquela era a pessoa certa na hora errada. 

Talvez as pessoas certas venham a horas. E esse seja defeito suficiente para com uma mão segurar a outra e fechá-la num abraço de quem tudo tem a perder e sabe disso

Gostava de me apaixonar por ela ... gostava.

Patrícia Luz
2 de Abril de 2013
ao som de Simple Things