quinta-feira, abril 24

Comunicado ás pessoas que pensam saber mais de mim do que eu própria (parte II). 

Enganam-se. 
Esta é a palavra certa para começar aquilo que tenho para vos dizer. Primeiro porque a maioria não me conhece - talvez o devessem tentar fazer primeiro -, apesar de acharem que sim. Depois, porque as entrelinhas onde me tentam muitas vezes encaixar, são o sitio onde eu vos tento encaixar a vocês. 

Não vale a pena virem tentar sugar-me as entranhas e descodificar a minha vida por entre as palavras que aqui escrevo. Sim, tu. Porque nem tudo o que parece é. E ninguém minimamente inteligente quer falar do que não quer que se saiba sabendo que as paredes têm ouvidos. Deixa-te disso. 

Deixem de se preocupar com a minha vida. Isso é sinal que a vossa não vos dá trabalho suficiente. Ela está bem de saúde e recomenda-se. Deixem as invejas mesquinhas, os filmes melodramáticos e tridimensionais que essas vossas pequenas cabecinhas fazem ao vir aqui achando que um mais um é igual a dois. Mentira. Neste meu canto um mais um dá o resultado que eu lhe quiser dar. Isto é um conselho para a vossa saúde mental.

Isto porque com sorte amanhã acordo com vontade de escrever ao meu namorado imaginário e ainda mato alguém do coração sem querer. 

Não me arranjem amores e dissabores. Fabriquem o vosso que isso é que faz falta. E já agora façam-no com alma e coração: não é com a alma num sitio e o coração no outro.  
Releiam-se em vez de me ler, porque esse é o meu propósito. 

A quem as palavras têm de encaixar não é preciso um desenho. 
A consciência pesa a quem a tem. E a esses, sim, as minhas palavras não têm contornos.

Um beijo, 
 pat


  



quarta-feira, abril 23

Liga(-me)




Engraçada a forma como as pessoas se desligam umas das outras. Sem graça nenhuma. 
Não gosto de perder pessoas. Não gosto mesmo nada de perder pessoas. Em ocasião alguma. Não gosto de não saber das pessoas com as quais sempre me preocupei, pelas quais fiz o que não pude, das quais tanto gosto. Não gosto de perder pessoas muito menos sem razão. Não gosto. Não faço por isso. Não o mereço. Muito pelo contrário. 

Não gosto de silêncios desmedidos. Gosto de silêncio. Não gosto de não saber nada quando quero saber tudo. Ou pelo menos alguma coisa. Não gosto de jogos. Gosto das mãos sobre a mesa. Não gosto da ausência. Quando se torna ausente de mais... 

Gosto de reticências. Mas já gostei mais. Gosto de acabar histórias com ponto e virgula. 
Gosto que se lembrem de mim. De modo que eu o saiba. Já tinha dito que não gostava de silêncios desmedidos certo? Não gosto que esqueçam os dias bons em prol de mágoas que a mim nunca me disseram respeito. Que me risquem do mapa, quando a dada altura fui o caminho certo. Ou pelo menos mo deram a entender.

Gosto de apertar a mão das pessoas que entram na minha vida e levá-las comigo. 

Porque não há erro maior que viver um erro para sempre: perder pessoas importantes para nós.

Não gosto. 


Patrícia Luz
23 de Abril 2014





quarta-feira, abril 9

Situações Constrangedoras - parte I





Foi numa urgência que o coração de um familiar próximo a atirou para os corredores de um hospital que nunca antes visitara. E foi esse mesmo coração que a fez sentir o cheiro a álcool esterilizante de que já não se lembrava, por mais umas quantas vezes naquele corredor sem fim que passara agora a visitar com alguma frequência, ainda que por pouco tempo, felizmente. 

É usual a forma como se movimentam aqueles que ali passam e trabalham: atarefados, uns apressados, outros menos; uns de cabis baixo pelas más noticias que recebem, outros felizes por passear o carrinho do novo membro da família que foi pela primeira vez ao médico. Alguns ansiosos ocupando os lugares vazios da sala de espera, aguardando a sua vez. E depois ela, que se sentava ali a ocupar o tempo, enquanto esperava que aquele coração que ali a levara saísse de saúde do gabinete 29. 

Enquanto isso lia o livro electrónico de que se faz acompanhar para todo o lado. Parando entre capítulos, apreciava os pés que em seu torno passavam em vários compassos. Retomava a leitura, distraindo-se milésimas vezes daquelas palavras cativada por sorrisos de crianças que a desafiavam, pelo choro agudo do sofrimento daquelas que ali entravam por piores razões, pelo nome que era finalmente chamado pela enfermeira para visitar o doutor, pelos idosos a quem oferecia o seu lugar...  mas principalmente, pelo rodar da maçaneta da porta que anunciava a bata azul escura da qual não sabe nada, a não ser que os buracos deviam existir para nos enfiarmos quando há olhares que se cruzam sem querer.

Graças a Deus que existem os telefones. Não há buraco melhor que nos acompanhe onde possamos enfiar os olhos quando isso acontece. Fê-lo. Como a maior parte das pessoas que não sabem onde se enfiar fazem quando isso acontece. 

Mergulhou nas palavras de novo. Mas só com os olhos, porque almas distraídas não sabem ler. Enquanto isso, em passos apressados, passara-lhe pela frente, mostrando-se atarefado com o seu trabalho.

 De costas podemos sempre deixar os constrangimentos de parte. Levantou a cabeça e viu-o sumir no fim do corredor enquanto ouvira o cardiologista desejar as boas tardes apertando a mão daquela que era a razão da sua permanência ali. «Vamos, por hoje está tudo!»

E estava realmente tudo. Agarrando apressadamente tudo aquilo de que se fazia acompanhar, era a sua vez de sumir naquele corredor sem fim, mas em lado contrário, o da saída. Em voz de fundo contavam-se as novidades dos últimos exames médicos. Talvez devesse ela prestar atenção à única razão que a tinha levado até ali, mas naquele momento havia a tentação de poder olhar uma última vez para trás na esperança de que o destino lhe provasse que foi apenas um momento. Sem repetições. 

Mas não foi.
Houvessem buracos à sua espera de cada vez que a maçaneta daquela porta se abrira. De todas as vezes que lá teve de voltar.


Felizmente as idas ao hospital terminaram. Não fosse o cardiologista ganhar uma nova paciente. 


Situações constrangedoras - Parte I
Patrícia Luz
8 de Abril de 2014