quarta-feira, agosto 6

Mulheres independentes




«Mulher segura não tem medo de ficar sozinha. Tem medo de ficar mal acompanhada»

Um dia destes, numa conversa em modo de rescaldo de uma relação que nunca o chegou a ser, com um, agora, somente amigo, que na realidade nunca passou disso mesmo - é verdade, estas coisas acontecem mesmo -dizia-me ele como quem sabe mais da minha vida do que eu, que fui feita para estar sozinha. Que me via assim. A ser feliz sozinha. Eu e as minhas coisas. Sem precisar de muito mais. Que é como quem diz, de ninguém.

"Há pessoas que foram feitas para ter alguém a seu lado, há outras que não. E é isso que penso de ti". 

Não me saiu da cabeça durante algum tempo. É por isso que a sei de cor. 

Dizer que há pessoas que foram feitas para não ter ninguém ao seu lado pode tornar-se um pouco indelicado e inconveniente, no mínimo. Mas naquela altura agarrei no meu positivismo e dei por mim a pensar que na verdade amar a nossa vida por si só é tão suficientemente bom que sim, até lhe podia dar um bocadinho de razão quando nem todas as pessoas foram feitas para sobreviver a solidão das suas vidas. É quase a mesma coisa, mas dito à minha maneira. Algumas existem para a transformar em coisas simples e boas, como faço todas as manhãs quando acordo e não há nada nem ninguém a que dedicar o meu tempo.

Foi mesmo aí que percebi que os homens têm um certo medo de mulheres independentes. De mulheres que não precisam de muito mais além da vidinha que levam para vingar e serem bem sucedidas, nem que seja para si próprias - o que incomoda muita gente, diga-se. 
Os homens têm um certo medo de mulheres que esculpem um sorriso nos dias em que haveriam mil e uma razões para chover torrencialmente. Isso deixa-os inseguros e se lhes dá uma grande dose de adrenalina conquistar alguém assim, talvez também os deixe com o coração nas mãos a pensar que assim como ela agora está aqui a sorrir com todas as armas e bagagens, pode mudar de freguesia quando por obra e graça do espírito santo algo não lhe agradar. E deixar-me ali, assim, despido de mim. 
As mulheres independentes são assim. Andam de malas e bagagens feitas para todo o lado. 

O grande problema da maioria dos homens é não saber segurar mulheres assim. 
Porque mulheres que se sabem divertir e aproveitar a vida sozinhas, dispensam homens sem coragem. Sem coragem de lhes mostrar que as malas e bagagens foram feitas para nunca mais sair dali, daquela casa que é o seu coração. 

Por isso, aquilo que a principio não me soou lá muito bem, tornou-se num elogio enorme. Poder viver a minha vida, com as minhas coisas e aparentemente ser feliz é algo bom. Muito bom. 

Mas não é suficiente. 

Amar a nossa vida sem a poder partilhar é um acto tão egoísta como seria o de ter um prato de sopa e ver alguém junto de nós a passar fome. O amor é assim. E nem falo do amor, amor. Falo daquilo que une as pessoas, os pais e os filhos, os avós e os netos, os amigos mais próximos. A felicidade só o é quando partilhada. É um pouco cliché repetir esta frase que está mais do que repetida por todo o lado e mais algum. Mas é a verdade pura daquilo que quero transmitir. 

O que ele me quis  dizer foi que nem todas as pessoas conseguem ser felizes sozinhas como eu. Mas o que eu lhe quero dizer é que só grandes mulheres o conseguem fazer. 

E isso assusta. Especialmente homens, que ainda não o são de verdade.


Patrícia Luz
6 de Agosto de 2014

sábado, agosto 2

Ao meu futuro marido

Ao homem com quem me quero casar.


(...)
Não precisa ter um metro e oitenta, olhos verdes e ser esculpido a proteína como a maioria dos que se vêem por aí. Não me interesso por armários com pernas, muito menos por modelos sem agência. Quero apaixonar-me por um homem de carne e osso e coração no sitio. Cabeça também, por favor. Tudo isso num só ainda se desculpa. Mas é raro; por isso o melhor é descartar a ideia.
As mulheres - mulheres: note-se - são parvas mas não são estúpidas.

Quero apaixonar-me por um homem trabalhador. Não por um homem rico. Porque um homem trabalhador poderá ser a maior riqueza que temos ao nosso lado, a lutar connosco contra as adversidades e por um futuro melhor. Um homem rico não. Um homem rico nem sabe o que são adversidades. Um homem rico pode ser tão rico que apenas tem dinheiro. E eu prefiro ser pobre, mas rica de amor pelo homem da minha vida.

 O homem com quem me quero casar é educado, poupado, inteligente, ambicioso e gosta um tanto ou quanto de números. De negócios. Gosto de homens de raciocínio fino. Perspicazes e Idiotas simultaneamente. Daqueles a quem não é preciso explicar tudo tim tim por tim tim para perceberem onde queremos chegar. Os que entendem o gesto que ainda não terminámos e as entrelinhas do que não dissemos. Que fale inglês e me possa dar umas aulas; ou que se inscreva comigo no wallstreet

O homem com quem me quero casar é verdade dos pés à cabeça. Fiel nos bons e nos maus momentos. Melhor amigo a cima de tudo, em todas as ocasiões. O homem com quem me quero casar vai abraçar-me a meio de uma discussão quando souber que não tem razão em vez de sair porta fora e nunca mais voltar. Vai sentar-se do outro lado da mesa e falar abertamente sobre tudo o estiver mal e tentar estruturar soluções. Porque um homem a sério não abandona o barco no meio da tempestade. Um homem a sério pede desculpa e diz obrigada. Diz que sim e que não quando tem que ser.

O homem com quem me quero casar vai ter olhos na cara e apreciar as mulheres mais bonitas do planeta que passarem por nós na rua. Mas nesse momento vai apertar-me a mão com força e sorrir com ar de palhaço ninja e fazer-me perceber que o planeta sou eu e estou a seu lado.  

O homem com quem me quero casar adora crianças. Crianças e animais. Vai querer ter um monte de putos a correr pelo jardim. Vai rebolar com eles na relva e ensinar-lhes a fazer surf, a jogar futebol e a fazer castelos na areia aos domingos à tarde e todos os dias da sua vida. Vai querer ter um labrador ou um pastor alemão à sua espera quando sair do trabalho e cuidar dele como se fosse família.   

O homem com quem me quero casar vai usar fato cintado durante o dia, quase todos os dias da semana. Vai chegar a casa a correr de maça na boca e fugir de prancha de baixo do braço e chinelo no pé. Vai ser jovem até ser velho. Vai adorar a ideia de me ter sentada na areia, com o sol já posto à espera de um beijo salgado no frio do entardecer de inverno ou no calor nas solarengas tardes de verão. Vai levar-me com ele para dentro de água com o seu grupo de amigos, cujas namoradas resmungaram no dia anterior por terem sido trocadas pelo sweell do momento, especialmente nos dias nublados em que todas anseiam pipocas e cinema.

Vai-me dar beijinhos na testa no final do dia. Abraçar-me quando fizer frio e sussurar-me coisas no ouvido. Segurar-me o cabelo quando me beijar. Aquecer-me os pés, o coração e a alma. 

Eu quero um homem que viva. Viva muito. Que adore o mar. Que não viva sem música. Que leia. Que não seja vidrado em futebol e de preferência que seja do Benfica para nos podermos chatear de vez em quando. Que não fume, muito. Cinzeiros é um adereço que não vai combinar com a minha (nossa) casa.

O homem da minha vida vai ter sempre bateria no telemóvel. E quando não tiver vai saber o meu numero de cór e ligar-me de uma cabine telefónica do outro lado do mundo só para dizer que está bem. Para saber se estou bem. Vai confiar em mim, sempre.Vai-me surpreender em dias inesperados sem gastar dinheiro em prendas supérfluas pois vai saber que prefiro momentos grátis. 

Vai ter planos. E sonhos. E objectivos.
Vai-me incluir em todos.

O meu futuro marido vai ser o homem da minha vida, o pai dos meus três filhos, o meu melhor amigo, o meu abrigo, o meu abraço apertado, o meu beijo de boa noite, o meu mar que tanto me inspira e uma das principais razões pelas quais vou sorrir todas as manhãs ao acordar por poder ter a sorte de o ter comigo. Aliás, de nunca o ter. Porque o segredo é mesmo esse. 

Por tudo isto, talvez nunca me case.  
Quem sabe?

Patrícia Luz
2 de Agosto de 2014
ao som de Agir.

Facebook| Instagram | Tumblr 


quinta-feira, julho 24

Pronto, é isto.

Tiras-me o sono.
Pronto, é isso!

Tiras-me o sono. 



Não te quero.
Aliás,
Só te
Quero,
Longe.

Assim,
como agora.

Não fosse tudo isto mentira. 

Patrícia Luz
Esta podia ser a minha vida. 
24 de Julho 2014