Lá naquele cantinho de pedra
redondinho visto do céu, que beija a ria formosa a sul e conta mil e uma
histórias em cada parede, teve lugar o I Festival F -escrever isto
assim quase que me faz sentir orgulhosa; espero que haja muitas edições, para
um dia poder dizer como “os grandes”: “ora, o festival F, aos anos que existe…
ainda me lembro do dia em que escrevi sobre a primeira edição”(risos).
A vila adentro é dos lugares mais bonitos da cidade. Sei disso de há
treze anos para cá quando lá fui pela primeira vez e me apaixonei. Nessa altura
ainda os pais levavam as crianças aos museus – foi por esse motivo que lá
fomos, lembraste mãe? – e as guitarras deixavam fugir uns acordes das
tasquinhas perdidas nas travessas.
Sempre me fez uma certa confusão
o silêncio daquele espaço nos últimos anos, o branco das casas sem sombras reflectidas
de pessoas a passar de mãos dadas e a escrever histórias de amor pela calçada; as
laranjeiras a sós com o azul do céu a contemplar os aviões que por ali passam,
uns atrás dos outros. Os barcos que atracam vezes sem conta ali perto, sem que
ninguém se dê ao luxo de pedir licença para entrar.
Além disto, as únicas recordações
que tinha deste espaço eram as capas pretas ao ombro dos estudantes; uns nostálgicos
por estarem a deixar a casa que os acolheu durante alguns anos, outros
orgulhosos por poderem entrar na família que é Faro. Sempre ao som das guitarras.
Agora não. Agora posso dizer que
me lembro das cores do arco íris a fazer de pára-quedas do céu, das ruelas
cheias de gente como não há memória. Da língua portuguesa a ecoar em todas as
paredes e a música a encher aquele espaço de vida, histórias, amizade, amor, arte
e cultura.
Queria por isso agradecer a quem
teve esta ideia. Mas sobretudo ao idiota que pôs tudo isto em acção. Faro
precisa cada vez mais de idiotas em acção.
Porque valeu a pena! Patrícia Luz 8 de Setembro
Nota. Artistas portugueses a cantar no seu próprio país façam o favor de falar com o público em português. Não sei, acho que ficava bem...
Nota 2. Sobre Capicua: A arte em português na voz de uma mulher. Top do inicio ao fim, passando pelas ilustrações e acabando nos cantos à capela!
Nota 3. Miguel Araújo, nem te digo a sorte que tiveste em actuar no palco Quintalão. O espaço deu outra magia à coisa; sem esquecer da voz da Luísa Sobral!
Nota 4. Tiago Bettencourt, um concerto menos rockeiro tinha ecoado melhor nas paredes na vila. Mas continuo a gostar muuuuito de te ouvir.
«És uma miúda esperta
e agora mostras que afinal és mulher e tens um rabo», como se uma coisa
tivesse alguma coisa a ver com a outra; como se não tivéssemos todos o mesmo,
salvo seja. Foi assim a última vez que engoli os sapos e fiz correr tinta sobre
o tema numa das janelinhas do meu chat
com um dos fotógrafos que colecciona rabos como a minha mãe pacotes de açúcar.
E não, não pensem que a analogia foi propositada. (Quase todos os dias ela guarda um diferente.)
A sociedade em que vivemos faz-me rir. Se num dia somos
muito evoluídos e estamos a deixar os estereótipos para trás das costas, noutro
temos todas as bocas do mundo unidas para criticar este e aquele pelo que faz
ou deixa de fazer na tentativa de ir contra aquilo que é aparentemente normal.
É assente nisto que me decidi a escrever. Há
duas coisas que as pessoas precisam distinguir: arte e ordinarice. E apesar de
não parecer à primeira vista, estas são duas palavras que quase podiam dar as
mãos, mas nunca o fazem. E é mesmo aí, entre essas duas linhas paralelas que eu
amo a nudez. No limiar do (in)aceitável.
Que se lixem os preconceitos, os estereótipos e o raio que
os parta. Sou muito liberal quanto à opinião dos outros. É a opinião dos outros.
Apenas. Só a do meu pai conta como se fosse a minha também. Não fosse ele o
melhor dos meus melhores amigos, mesmo quando eu acho que não.
A maldade destas coisas está nos olhos de quem as vê.
Percebi isso no dia em que publiquei uma foto onde me vejo como sou: em casa, de bikini e pé descalço, com o sol a bater-me na cara e o mar ao fundo a reflectir-se nos meus olhos a um sábado de manhã, em que cinquenta por cento das pessoas, no mínimo, apenas conseguiu ver um rabo.
As mulheres são peritas nisto. Não, não é a falar mal da
nudez. É a invejar a nudez das outras. Há uma certa segurança transmitida na
nudez que incomoda muita gente. Especialmente quem não se sente bem consigo
próprio.
Os homens não. São
mais peremptórios. Eles permitem a nudez porque gostam. Mas dizem que não fica
bem porque nem todo o mundo precisava ver aquilo que eles gostavam de ver a
sós.
Mentalizem-se que as pessoas são aquilo que carregam dentro
de si.