segunda-feira, dezembro 2

A casinha cor de rosa

Mais uma vez o sol se pôs e a noite caiu sobre a cidade. Instantes. Menos um dia de vida para alguns. Mais um, para outros. Como o tempo passa... 
Regresso agora a casa como a maioria das pessoas que finalmente olham o relógio e embarcam na hora de ponta do final de tarde - desesperadas pelo sofá de suas casas, pelo abraço dos seus filhos, o carinho dos seus maridos ou apenas do silêncio das quatro paredes que as esperam - num pára-arranca despreocupado, pensativa como sempre sobre os afazeres que a vida me vai dando, ouvindo os repetidos heats da rádio que, como todos sabemos, pouco diferem de dia para dia, excepto a piadinha que por sorte se inventou à pala no noticiário do dia anterior para solucionar males maiores; apreciando o ar friorento daqueles que se movem pelo passeio, uns em tom pachorrento, outros apressados de sacos de compras e crianças pela mão e todo aquele dinamismo de carros e luzes de um lado para o outro, que fazem a cidade ganhar seu próprio nome. 
Como eu, muitos percorrem os mesmo caminhos todos os dias e este é habitual para mim. Apesar de despreocupada, vinha ansiosa. Tinha uma mensagem por ler no telemóvel e ele tocara ali ao lado, constantemente, alertando-me. Mas nem isso me fez deixar de olhar para ti com o encanto de sempre. De sempre...
O semáforo mudara. O transito estava denso e deixou-me à tua porta. Que nostalgia! Como poderia eu apreciar a luz do sol minutos antes como se fosse a melhor coisa da minha vida e estar agora especada, no meio do transito, a olhar para a minha casinha cor de rosa, toda iluminada e sentir que o melhor de mim tinha permanecido ali? O verde caíra. Não dei pela distancia a que o carro da frente já se adiantava sequer. Mas dei por mim a entrar finalmente em Dezembro, da pior das maneiras. Da pior das maneiras, a olhar para a casinha cor de rosa com olhos de ver e coração a palpitar-me nos dedos.
Quantas pessoas ali passarão sem se dar conta da triste realidade que se vive além daqueles muros altos, cor de rosa, que transpiram uma paz que poucas crianças vivem? Ali, e em todos os outros muros, de todas as outras cidades, de todas as outras casas de várias cores, onde passarei também eu sei saber, tu, ele, eles, nós. 
O meu caminho de regresso a casa ganhou outro brilho. Não por a cidade estar muito mais bonita desde ontem, com cores novas e um cheiro a natal para aqueles que o viverão perto dos seus entes queridos, no quentinho da lareira, abrindo presentes e trocando amor e gargalhadas, mas sim por me lembrar de ter a Mariana sentada no meu colo à quatro anos atrás e a ver, a ela e a todas aquelas crianças que até hoje não esqueço, suspirarem de alegria, ao verem aquelas três mil luzes acenderem-se nos seus olhos translúcidos, de quem não sabe bem o que os espera. 

Este é um mês diferente. Mas não é por isso que ora o escrevo. Só quem lá perdeu um bocadinho dos seus dias entenderá. 

Lembrem-se que em cada Natal supérfluo há pelo menos uma criança sem um presente para abrir, um abraço para receber ou um beijo de boa noite para adormecer. Lembrem-se, como eu, que ao passarem por ali, aquela (e as outras todas do país e do mundo) não é mais uma casinha cor de rosa. É uma realidade que poucos querem ver. 

Pratiquem o bem; se todos o fizermos alguém ficará melhor.

À Mariana, a irmã que eu sempre quis trazer para casa, e a todas as outras crianças que ali moram, os meus votos de sorte e esperança de um mês de Dezembro feliz. A todos os que dão a vida por elas, igualmente.
Comprometo-me a deixar-vos como sempre a minha prenda.

E se o futuro não vos sorrir como desejo, lembrem-se que um dia alguém chorou por não poder fazer mais por isso. 


Patrícia Luz
3 de Dezembro de 2013 






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