quarta-feira, janeiro 22

Noites em claro


Há momentos para tudo. Sobretudo para perceber que tudo não passa de momentos.
Pedro Chagas Freitas


Inverno é sinónimo de frio. E frio é antónimo de amor.
Pensava-o enquanto calçava umas meias polares antes de me enfiar no vazio da minha cama. Arrumava-a e arrumava-me a mim também para mais uma noite em que os lençóis e o edredon pouco iriam fugir do sitio. De olhos postos no tecto, aconchegada até à ponta do nariz, a meia luz e com algumas horas passadas da meia noite, perdidas em crónicas, chá e algum jazz, lembrava-me de quantos casais estariam naquela altura a lutar pelos cobertores, a dormir num abraço fechado ou de costas voltadas sem perceberem bem porquê; do quão parvos eram se assim fosse. De quantos deles dariam realmente valor a isso. E dos que davam, quantos se sentiriam felizes na sua plenitude por o poder fazer. Hoje em dia há que pôr tudo em causa. Afinal de contas ninguém quer partilhar a cama com alguém que a partilha com outrém, quem sabe, em pensamento. Não era nada disso que que queria para mim naquele momento. Nem naquele, nem em nenhum.

Após apagar a luz, os olhos continuam postos no silêncio da noite, no vazio da cama, nos pés que teimam em não aquecer. Insónias: chamam-lhe assim os que não sabem o que é o amor. Amor? Quase amor. Gosto mais de lhe chamar assim. Afinal de contas é isso que nos tira o sono, não é?

«Não consigo dormir a pensar em ti.» Escrevi-lhe.

Se não o podia abraçar naquele instante, então que a noite fosse grande o suficiente. 
Para pensar. Nele,
Em ti. 



«Noites em claro, parte I» 
22 de Janeiro 2014




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