domingo, março 1

Uma viagem de metro

Já passava das vinte horas quando me sentei estafada no banco da estação onde a solidão deixada pelo último metro, que perdi por segundos, se instalava nas paredes que ainda tremiam ao ecoar as carruagens a escorregar pelos carris até à próxima estação, bem lá no fundo de um silêncio barulhento. 

Vestia um fato preto cintado e não via a hora de descalçar os sapatos, comer o que quer que fosse e enfiar-me na cama depois de um dia longo de trabalho. Estava exausta. Mas feliz. E isso compensava tudo o resto. 

Entretia os olhos a ver as horas de trinta em trinta segundos. 
Sempre que o ecrã do telefone escurecia parecia que isso era sinónimo de estar realmente sozinha e desconectada do mundo. Ainda que isso fosse mesmo verdade. 

Andamos tanto tempo com os olhos enfiados onde não devemos que nem reparamos no que nos rodeia. Nos sinais que a vida nos dá e que nos passam tantas vezes ao lado. 

Guardei apressadamente o telemóvel ao ouvir uma voz aparentemente tresloucada a ecoar nos corredores do metro. E quando levantei os olhos para perceber de onde vinha, deparei-me com um anúncio publicitário que dizia: «Alguma vez pensaste no que realmente importa?». A voz continuava a ecoar nos corredores e com ela adivinhava-se um homem, perdido na vida, a vaguear sem norte por ali. Com ele, outras pessoas foram chegando. Muitas delas sozinhas, algumas de mão dada. Algumas francamente tristes, outras com olheiras de quem não dorme há vários dias seguidos para conseguir por o pão na mesa, muitos com ar preocupado, anestesiado, macambuzio. Muitos como eu. A sonhar com a cama e a sentir barriga a dar horas enquanto a cabeça nem força tem para pensar. Alguns idosos que insistem em manter a juventude; outros claramente em busca das caras que não vêem em casa durante dias, dos filhos que deles não tratam ou de alguém que lhes diga o bom dia que não ouvem. Pessoas introvertidas. Extrovertidas. Pessoas sociais. Pessoas anti-sociais. Ricos e Pobres. Analfabetos e doutores. Mães com filhos pela mão (...)  

Acho seriamente que o metro é uma amostra metafórica do que é a vida. Do que são as pessoas e os seus estados emocionais. Um retrato fidedigno da nossa sociedade. Daquilo que somos e que ninguém quer ver. 

Do outro lado linha, chegava finalmente o homem que continuava a balbuciar coisas sem nexo. Todos se afastavam dele. A maioria virava a cara para o lado e havia uma rotunda imaginária na mente de todos aqueles que tinham de passar perto. Circundavam-no pela faixa de fora, como se maluquice de um ser consumido pelo excesso de alcool, se pegasse. 

Fixei as minhas atenções no que dizia. Ainda que por vezes distraída com um negrinho muito giro que dançava R&b suavemente ao meu lado enquanto os fones, aos altos berros, o abstraiam do que eu observava. 
Encostou-se em frente à publicidade que me tinha chamado à atenção segundos antes, a divagar as suas amarguras. Falava alto e do pouco que percebi, quase num choro sem lágrimas, dizia «eu só queria trabalhar ....mas não posso .... ninguém me deixa ... eu gostava tanto... eu só queria trabalhar». Gesticulava enquanto deixava o seu corpo escorregar pela parede - que suportava o anuncio - como se de uma lágrima se tratasse a escorrer pela cara de alguém, e ali ficou, sentado no chão a falar para quem o quisesse ouvir, como eu, que o fazia do lado de cá da linha, até que os metros se cruzassem a alta velocidade e mo fizessem perder de vista, quem sabe para sempre. 

No caminho de regresso ao hotel várias foram as micro situaçoes que me chamaram à atenção. Muitas as que lamento.

Num final de dia em que desejei sofregamente a minha cama, dei por mim a fechar os olhos e não ter sono. 

Afinal de contas, o que é que verdadeiramente importa?

Patrícia Luz
2 de Março de 2015


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