Quero escrever sobre o meu país. Do quanto me faz ter o
coração apertado para o bem e para o mal, do quanto me orgulha e do quanto me
entristesse.
Há dias em que o melhor do mundo está aqui debaixo dos meus
pés e por isso não anseio nada mais do que isto, há outros, em que as lágrimas
me escorrem cara a fora só de ver o inferno da vida de algumas pessoas que me
rodeiam sem que elas mesmas se apercebam.
Somos assim. Um povo teatral que se habituou a encarnar
várias personagens só para não ter o dedo do outro apontado à cara. Nunca
estamos bem. Passamos de bestiais a bestas como quem muda de cuecas. Mas o que
interessa é sorrir. Se sorrirmos está tudo bem.O cão ladra e a caravana passa e
seja o que deus quiser.
Seja o que Deus quiser uma merda.
Quero falar mal do meu país porque o amo. Quero falar mal
das pessoas porque se conformam. Quero falar mal da política e da educação, porque
é aqui que está o cerne de um país que tinha tudo para dar certo e anda torto.
Quero falar dos milhões investidos para arear uma praia em
Lagos com o objetivo de receber mais turistas, quando não aumentamos um aeroporto
por falta de verbas. Sendo que a areia se foi e os turistas não voltaram. Do
emprego que se nega a uma grande percentagem de portugueses qualificados por
não saberem falar inglês, trocando-os por ucranianos que dominam dez linguas e
estão ilegais. Quero falar do ordenado minimo que alimenta seis bocas menores à
mesa enquanto o estado investe em estádios de futebol que apodrecem por falta de uso.
Quero falar da fruta - e de todas as tretas deste género -, que quando é nossa não presta. Mas quando vai a Espanha e volta já é a melhor do mundo.
Quero falar do Algarve que trabalha quatro meses do ano com
trabalho escravo de borla a que decidiram chamar formação profissional oferecida
a estagiários das mais diversas partes do país. Da calamidade que é recebermos
bruta-montes, perdoem-me a expressão, que nos mijam em cima sem que nos
possamos recusar a recebê-los porque o pão de cada dia de um ano está
dependente de como correm estes miseros quatro meses.
Quero falar das pessoas. Da educação que não tem.
Dos valores. Que são raros...
Caramba Portugal, gosto tanto de ti, porra.
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